Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Natal de 2058

Aprender a viver sustentavelmente com o Programa Eco Escolas

Voz aos Escritores

2018-12-29 às 06h00

Joana Páris Rito

Hoje montei o Presépio. As mãos encarquilhadas despiram as figuras do jornal bafiento, amortalhado, que as ampara do passar dos anos. Ao invés de mim, são impermeáveis ao tempo os bonecos de barro pintado. Ressuscitam em cada Advento. Algumas mazelas se lhes notam, não pela vetustez, mas por terem sido o entretêm de geracionais deditos infantis. Lembras-te, amor, quando na infância recolhíamos o musgo verde dos campos salpicados de branco? As raparigas levavam os sacos de serapilheira, os rapazes os canivetes. Tu a dares-me a mão. O amor a acalentar o coração. A euforia a derreter o gelo. As risadas a aquecerem os corpos.
A felicidade é inimiga do frio. A solidão é comparsa do arrefecido.
Como eu, só e enregelada. Desculpa, amor, sou uma velha tonta, achacada às lamechices. Não te escrevo para desabafar lamentos. Escrevo-te porque:
Hoje montei o Presépio. Não o atapetei de musgo. Não o posso recolher. Os pés e as patas das figuras pisam um papel pardo, amarfanhado, igual à minha pele. A manjedoura, a ponte, o moinho, o coreto, as carroças e o castelo, afagam a madeira carcomida da mesa, como os meus dedos carunchosos acariciam as peças, memórias dos Natais pretéritos. Nós a dispormos os pastores, a banda de música, os rebanhos, os pescadores, os magarefes, os Reis Magos, os moleiros, as varinas, os leões, os camelos, os elefantes, os vendedores de pechisbeques. Nós a fazermos do Presépio uma festa popular, um jardim zoológico, uma feira de gritaria, cor e vivacidade. Nós a escondermos a cagona atrás dum morro. Nós a rirmos do rabo ao léu da lavradeira, das saias erguidas, do desplante impúdico. Tu a roçares os dedos nos meus. Eu a corar. As lágrimas de alegria a aflorarem-me aos olhos, o sorriso tímido a rasgar-me o rosto sem rugas. O contentamento também chora e a mágoa afoga. As lágrimas de tristeza que agora derramo, rios que sulcam a pele engelhada, que empapam o papel pardo. Desculpa, amor, não te escrevo para verter o pranto. Escrevo-te porque:
Hoje montei o Presépio. Escuto o calar dos risos na solenidade dos teus gestos, a aconchegares na cabana de paus a Nossa Senhora, o São José, a vaca e o burro, as palhinhas que iriam receber o Menino à meia-noite, cujo tamanho era maior que os animais que o sopravam. O Menino a atestar a grandiosidade diante da pequenez humana. O Menino que agora cubro, como a ti fazia. Entalava-te os cobertores, encostava-me ao teu corpo, sorvia o teu cheiro a musgo e a canela, dizia-te, dorme bem, amor. As palavras que te disse quando antes de mim partiste: dorme bem, amor. Desculpa, sou uma velha saudosa. Não te escrevo para te acusar. Foi a vontade de Deus. Escrevo-te porque:
Hoje montei o Presépio. Está cheio de histórias. É uma relíquia esquecida após o colapso da natalidade. Um sarcófago de risos suaves das crianças de outrora, sussurros de destinos promissores. Não nascem crianças. Não tivemos netos. O Natal sem gaiatos perdeu a magia. A existência sem nascimentos não tem porvir. Somos um poiso de velhos, uma jangada escavacada à deriva na inconstância dos mares e do que há de vir. Fecharam infantários, creches e escolas. Não há alunos. Encerraram lojas de brinquedos, de roupa infantil, parques de diversão, centros de puericultura, de apoio à maternidade. Não há baptizados, nem festas de aniversário com palhaços e balões. As profissões dedicadas às crianças estão obsoletas. Sobejam lares de terceira idade e funerárias. O comércio ligado à geriatria floresce. Os velhos subsistem no remedeio. Não há reformas. Não há gente activa que para nós trabalhe, que para o futuro deles trabalhe. Os velhos arrastam-se. Poucas mãos jovens há que os acudam. Os governos negligenciaram a natalidade. A longevidade aumentou. Vive-se mais tempo, mas sem crianças, sem descendentes, sem esperança, vive-se menos.
Na Terra não plantam semente de gente. Na Terra não há amor de pai, de mãe, de filho, de filha, de avô, de avó, de neto, de neta. Enterrou-se a essência da vida. Outros valores sobrepuseram-se-lhe. Que valores, amor? Não te escrevo para te importunar. Escrevo-te porque:
Hoje montei o Presépio. Sinto o cheiro a canela. Saboreio as rabanadas, os mexidos, a aletria. Sabem-me aos teus beijos, os doces natalícios.
Quero perpetuar as tradições, perdurá-las na História, transmiti-las, mas a quem?
Hoje, amor, montei o Presépio. Só para nós.

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