Correio do Minho

Braga,

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Não sei se fale

Mentira social e a mitomania

Ideias

2012-09-12 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

No retomar das minhas crónicas, gostaria de poder olhar para vários temas, como o aniversário do fatídico 11 de Setembro, ou a dinâmica dos discursos pré-eleitorais nos EUA, ou … Gostaria, mas não consigo.

Esta realidade nacional cola-se-me à vontade como uma resina. Resina não, que é palavra nobre, invocadora de seiva e de vida, ao passo que ‘isto’ é uma espécie de gosma, de visco que não me larga. Nem a mim nem a ninguém.

Não sei se fale do recente anúncio de novas medidas de austeridade, da sua despudorada insensibilidade social que já tanta tinta faz correr; não sei se fale da mensagem do PM, supostamente tocado pelo drama familiar que as suas palavras causam, na busca de compaixão pelo cálice que não conseguiu afastar; não sei se fale do ensurdecedor silêncio do presidente da república que há mais de um ano clamava estarmos nos limites dos sacrifícios exigíveis. Não sei aliás se fale.

É que se há coisa em que somos decididamente pródigos, são as palavras. Escrevemos muito, falamos muito, opinamos imenso (eu por mim falo!). Por todo o lado, se manifesta em palavras a indignação, o cansaço, a raiva, o inconformismo, o fatalismo, um sei-lá que número de sentimentos, de convicções e de razões. Somos um país de palavras. Ainda bem que o somos! Ainda bem que nos é dada a liberdade e há em nós a força para usarmos as palavras, seja para condenar este cenário de dejecção nacional, seja para defender as medidas em que o mesmo se alicerça. Mas bastarão as palavras? Sobretudo aos que se indignam e o fazem saber nas diferentes esferas a que conseguem aceder (umas certamente mais amplas que outras, pelo que uns serão ‘opinion makers’, enquanto outros, meros cidadãos interessados que expressam as suas ideias), pergunto: bastarão as palavras?

Talvez me possam contra-interrogar com a situação da Grécia, perguntando-se se tem adiantado de muito mais, a agitação social que por lá se vive pelo menos desde 2011. Ou se as contestações em Espanha têm feito mossa grande na linha governativa de Rajoy.

Podem contra-interrogar, que eu continuo perguntar: bastarão as palavras de rejeição e de indignação para evitar a confiscação absoluta do futuro dos nossos filhos e do sossego da nossa velhice? Que mais precisamos de ver, para finalmente acreditar que é verdade esta miséria de caminho?

Termino, de Miguel Torga de quem recentemente se publicou uma frase lapidar sobre o ser-se Português, com esta frase do seu Diário de 1936: “Esta velha humanidade, tudo quanto seja acreditar que dois e dois são quatro, quatro e quatro, oito, e oito e oito, dezasseis, muito bem e sem nenhuma prova; agora quando lhe dizem que há gente que morre pela sua verdade, é preciso mostrar-lhe Sócrates a beber a cicuta, Catão com a espada enterrada no ventre, Cristo pregado na cruz, — e nem assim.'

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