Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Não se pode exterminá-los?

Macron - Micron

Ideias

2015-12-27 às 06h00

Artur Coimbra

1. Falamos, obviamente, dos bancos, do sistema bancário que tem desgraçado os contribuintes portugueses, desde há meia dúzia de anos. É deles que falamos e é da sua actuação ruinosa que os portugueses têm motivos para se indignarem, enraivecerem e revoltarem.
As pretensas competências financeiras, os banqueiros condecorados pela Presidência da República e que publicaram livros sobre alegados exemplos de sucesso e paradigmas de lideranças, os deles próprios, o mor das vezes cumpliciados com o poder político, cavaram “buracos” sucessivos nas contas dos bancos, por inépcia, vigarice, crime ou seja lá por que for, que acabaram por repercutir-se nas contas públicas e obrigar os contribuintes a pagar os desmandos dessa troupe de malfeitores, que é o que verdadeiramente são.
Em tempos de vacas gordas, os banqueiros vêm para a praça pública ufanar-se de lucros colossais, que anunciam como troféus de fantasiosas mestrias de gestão financeira, quando mais não estão a fazer do que esportular os depositantes e contraentes de empréstimos que pagam em juros o dobro do dinheiro que pediram. Nessa altura, os “competentes” banqueiros, que não têm vergonha de auferirem ordenados de dimensão pornográfica para o país onde operam, não se chegam ao Estado para apoiar o esforço de construção de um país mais justo e desenvolvido. Distribuem os chorudos lucros pelas administrações e pelos accionistas, continuando a explorar depositantes e titulares de empréstimos, cujas comissões e taxas de juro poderiam suavizar. Mas não. Querem tudo para eles, como lídimos representantes do capitalismo financeiro, impessoal e desprezível, que corporizam. O pior é quando as coisas correm para o torto. Aí chegam-se ao Estado, quer dizer, aos contribuintes, que somos todos nós, para cobrir erros de gestão, incompetências, aldrabices, vigarices, irresponsabilidades e outras actividades menos lícitas e transparentes.
E o mais ridículo, chocante e repugnante é a ausência de responsabilidade na maioria dos casos que são conhecidos, tirando duas ou três prisões, que acabam por passar uma esponja sobre crimes que lesam a economia nacional…
2. Foi o que aconteceu com bancos como o BPN, o BPP, o BES e agora o BANIF, enquanto outros não chegam…
Desde logo, perante todos estes sucessivos casos, num curto lapso temporal, o que será legítimo questionar é porque é que se criou na esfera política e económica a ideia da inevitabilidade de os bancos terem de ser salvos com o dinheiro de todos nós, enquanto uma qualquer empresa vai à falência, mesmo que enviando centenas de operários para o desemprego, e os governos não se ralam minimamente com isso?
Porque é que na Finlândia, por exemplo, os bancos insustentáveis vão à falência e em Portugal os governantes decidem que obrigar os contribuintes a pagar é o melhor para 'a estabilidade do sistema financeiro'?
Mas quem é que mandata os governos para agirem em nome dos contribuintes, em casos destes, que não constam de programas eleitorais nem de programas de governo? Onde é que a resolução de casos como os do BES ou do BANIF está nos programas seja de que partido for? E se os partidos são eleitos para governar em função de programas eleitorais, não poderá considerar-se que, em casos como os mencionados, os governos extravasam e exorbitam perigosamente a sua legitimidade democrática?
Não valeria a pena pensar nisso?! Até quando os portugueses vão continuar a aceitar passivamente esta desvirtuação da sua vontade, coagindo-os a pagar pelos erros e crimes de banqueiros e políticos?!...
3. Quando nos andaram durante três anos a vender a ideia de que o BANIF não era problema, que ia sair barato e que não afectaria os contribuintes, eis que, em finais de 2015, um governo com três semanas de vida se vê obrigado a resolver um gravíssimo problema que foi “empurrado com a barriga”, por Passos Coelho, Portas e Maria Luís, por mera estratégia política, ideológica e eleitoral, o que torna essa gente indigna, pelas consequências que advieram dos seus actos inqualificáveis e obscenos, de voltar a exercer cargos políticos, como bem escrevia João Miguel Tavares, no Público, de terça-feira.

O problema foi sendo inexplicavelmente adiado até que nos aproximamos do dia 1 de Janeiro de 2016, em que Bruxelas passa a ter novas regras para a resolução bancária, nomeadamente com perdas directas para os depositantes.

Está mais que comprovado que os portugueses vão ter de pagar mais 3 mil milhões de euros do Orçamento de Estado, que poderiam e deveriam ser canalizados para a educação, a saúde e a segurança social, para cobrir actos ou omissões que resultam obviamente de meros objectivos eleitoralistas do governo anterior que já há muito deveria ter resolvido o quente dossiê. Poderia e deveria tê-lo feito há três anos, como sublinhou o primeiro-ministro António Costa, em entrevista ao JN esta sexta-feira, o que teria menos custos para o erário público. Mas as “mentes brilhantes” que na altura governavam (e que felizmente foram apeadas depois de 4 de Outubro, porque se revelaram deletérias para o país), não queriam “manchar” a ilusória “saída limpa” do programa de ajustamento, e, mais tarde, por motivos eleitoralistas, minimizaram uma questão que já se sabia que a todo o momento haveria de rebentar, com as mais nefastas consequências. Aqueles governantes da direita, que têm gasto tempo demasiado a falar da alegada “gestão ruinosa” de Sócrates, colocaram inequivocamente o interesse político e eleitoral acima do interesse do país, obrigando cada família portuguesa a suportar com mil euros a falência de mais um banco.
Aldrabões e mentirosos é o que eles foram e são!
4. Enfim, dúvidas não restam que os rostos da falência do BANIF são Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís e obviamente Carlos Costa que há muito deveria ter sido demitido do cargo de supervisor, pois nada supervisiona, a não ser os chorudos ordenados próprios e do seu séquito. Terão de ser responsabilizados pelo prejuízo que causaram ao país, o que se espera venha a ser devidamente apurado pela comissão parlamentar de inquérito. Até porque dispunham de €12 mil milhões de empréstimo da tróica e apenas usaram metade, por mera contabilidade eleitoralista. Aliás, a malfadada tróica é também responsável pelo descalabro, pois preocupou-se mais com a estúpida agregação de juntas de freguesia do que com o sistema financeiro, como bem sublinhou António Costa, que está a abrir janelas de esperança num quadro político até agora marcado pela decadência, pela irresponsabilidade, pela pouca-vergonha.

Além de Passos Coelho, que pelo menos teve a hombridade de promover a abstenção do seu partido na votação do Orçamento Rectificativo, há uma Maria Luís directamente responsável pelo descalabro, como titular das Finanças, e um Paulo Portas que foi vice-primeiro ministro do extinto governo, que não resolveu o problema, mas teve o desplante político de votar contra quem se dispôs a resolvê-lo, não se coibindo de enfileirar com o que sempre chamou de “esquerda radical”. Um traste!...

A culpa não pode morrer solteira, obviamente e os responsáveis políticos e financeiros que para tal contribuíram devem ser devidamente punidos.
Em nome do “interesse nacional”!

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