Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Não podemos ignorar!

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2011-05-02 às 06h00

Artur Coimbra

Eu bem gostaria de tecer uma crónica feliz, que transmitisse alegria e esperança, que é sempre a última a morrer.
Porém, só um desmiolado ou um lunático que não tenha minimamente os pés assentes na terra pode, nos dias de hoje, sentir-se despreocupado, como se apenas houvesse tranquila primavera em seu redor.

É evidente que nem tudo é negativo. Temos excelentes artistas, escritores e homens de cultura a “dar cartas” no estrangeiro, levando bem longe o nome e a identidade mais intrínseca e valiosa deste país. Possuímos um escol de cientistas, a trabalhar cá dentro e lá fora, nos melhores laboratórios e que deveriam ser o nosso colectivo orgulho, pelo seu produtivo trabalho, pelas suas relevantes descobertas, que contribuem fortemente para a melhoria do bem estar e da qualidade de vida dos cidadãos, nas áreas da saúde, da biologia, da química e de tantas outras. Temos também os melhores desportistas europeus e mundiais, quer atletas, quer treinadores, que pontificam nas mais sonantes equipas das diferentes modalidades, em especial no futebol. E temos equipas de topo no futebol europeu, para já não falar na selecção nacional, que tem feito nos últimos anos uma carreira internacional digna de relevo.

E temos um bom povo. Homens e mulheres maravilhosos que se esforçam por conseguir um quotidiano digno, trabalhador, corajoso, aplicado. Um povo sofredor, que faz das tripas coração para aguentar cada vez mais mês no fim dos seus ordenados. Um povo que se queixa da carestia da vida e da ausência de fundos, mas que, pelo Carnaval, pela Páscoa ou pelas férias grandes, sobrelota os Algarves de aquém e de além-mar, como se não houvesse amanhã. E “veste-se” de bons carros, telemóveis topo de gama, computadores com ligação à Internet.

Um povo de brandos costumes, que aguenta, com cara alegre, as agruras do dia a dia.
Mas é impossível não estar inquieto e desassossegado com a situação do país. Como diz a canção, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.

E o que vemos é uma crise económica, financeira e mental de contornos inusitados, um desemprego galopante, um aumento do custo de vida incontornável. Basta atentar no constante agravamento do preço dos combustíveis para se ter uma ideia de onde é que “isto” vai parar. E ainda ontem um diário confirmava que “patrões despedem 362 pessoas por dia”, o que não deixa de ser aterrador.

Temos por cá a “troika” do FMI, CE e BCE, que nos vai tratar da saúde, passando um atestado de incompetência e de menoridade aos nossos políticos que não conseguiram entender-se para resolver internamente a delicada situação. É uma vergonha. Agora, fala-se que o subsídio de férias dos trabalhadores pode ser “convertido” em certificados de aforro, como se diz que o 14º mês dos reformados também será retirado, acabando benefícios e isenções fiscais. Como se noticia que estão em risco os milhões de euros que podem tirar Portugal da bancarrota, se a Finlândia não quiser participar na “ajuda” (?) ao nosso país.

Diz-se tanta coisa, o que obrigou o demissionário José Sócrates, a vir a terreiro informar que tudo não passa de pura especulação. As negociações estão a decorrer e apenas no final se verá o que virá a suceder a todos e a cada um de nós.

Entretanto, saúda-se vivamente o apelo uníssono dos presidentes da República do pós-25 de Abril, no sentido do fortalecimento de uma solução maioritária e forte a sair das próximas eleições. O país exige um governo de amplo apoio parlamentar, não certamente uma “união nacional”, como graceja Passos, mas um parlamento e um executivo que signifiquem uma ampla concertação democrática. O que o primeiro presidente eleito da democracia, Ramalho Eanes, sintetizou, ao defender que o próximo executivo deve ser de “amplo espectro político-partidário e social, aberto aos valores da sociedade civil e que desenhe, estabeleça e consensualize, o mais possível, um grande propósito nacional, popularmente mobilizador”.

São de louvar, assim, todos os esforços no sentido de que o ambiente politico se apazigúe, se esbatam os confrontos estúpidos, estéreis e inúteis, se abandone a guerrilha verbal tão do agrado de alguns, se reforcem as pontes de entendimento entre os principais partidos.

Como apelou Mário Soares, em 25 de Abril, impõe-se “a necessidade crucial de que os portugueses se unam ao redor das grandes reformas necessárias para assegurar um futuro melhor para todos e que os partidos e os parceiros sociais dialoguem, independentemente das divergências ideológicas que os separam”.

O momento é de elevada gravidade, e de excepção. Por isso, exige medidas e esforços de excepção, para que possamos sair do impasse e voltar às vias de desenvolvimento colectivo!
E deixemo-nos da estéril crispação, de contornos meramente políticos e para media consumir, porque os portugueses estão fartos dos malabarismos verbais que os líderes dos principais partidos se vão arremessando mutuamente. Eles querem é manter ou conquistar o poleiro, enquanto os cidadãos pretendem é que a vida corra e que os deixem em paz!...

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