Correio do Minho

Braga, terça-feira

Não há dinheiro para a cultura mas não falta para os bancos!

Combater a DPOC

Ideias

2018-04-08 às 06h00

Artur Coimbra

1 Por estes dias não se fala em outra coisa. Além, obviamente, da inacreditável prisão de Lula da Silva, no Brasil, em que são mais os deputados e os juízes corruptos do que os que têm ficha limpa e dos malabarismos do presidente de um clube lisboeta.
A contestação aos critérios de distribuição dos subsídios da Direção Geral das Artes explodiu pelo país, quando se verificou que, além de escassos, foram pessimamente distribuídos, seguindo regras que não se sabe muito bem onde querem chegar, deixando de fora projectos artísticos consolidados nas áreas do teatro, da dança ou da música, sem qualquer justificação.
Os protestos atingem desde logo os responsáveis ministeriais da área da cultura, do ministro ao secretário de estado, e obrigaram à intervenção do próprio Primeiro-ministro, incomodado com as manifestações. O certo é que o governo está a arder, desta feita não nas florestas do centro do país, mas no âmago de uma contestação legítima e justificada dos agentes culturais.
À medida que os protestos foram subindo de tom, também as verbas foram aumentando. Em duas semanas, sensivelmente, o acréscimo dos apoios passou de 15 para 19,2 milhões de euros, incluindo a recente subida de 4,2 milhões para permitir acomodar mais 43 estruturas artísticas.
O que se nota, desde logo, é a deriva dos responsáveis governamentais, perfeitamente às aranhas, como soe dizer-se, para responder à situação. Não sabem, não conseguem, dão explicações esfarrapadas, designadamente a de que falta dinheiro no orçamento.
Ora esse é um argumento perfeitamente absurdo porque todos nos lembramos, e foi recordado justamente a António Costa no Parlamento, que, enquanto a cultura continua a ser um parente pobre da governação, as prioridades vão no sentido da obsessão com o sector bancário. Enquanto para a cultura as verbas são de décimas percentuais do orçamento, não falta dinheiro para acudir aos bancos, sucessivamente palcos de incompetência, vigarice, corrupção, fraude, amiguismos, desvios que são pagos por todos nós.
Ainda há dias foram reveladas as contas do Novo Banco, com prejuízos históricos de 1400 milhões de euros, só em 2017, obrigando a uma injecção de quase 800 milhões de euros, dos quais 450 milhões cabem aos contribuintes.
Para isso, há dinheiro!
E não nos esqueçamos que ainda há poucos meses o Estado reforçou a Caixa Geral de Depósitos, com mais 5 mil milhões de euros, suportados sem o querem pelos contribuintes
E para cobrir os desmandos dos banqueiros corruptos e incompetentes do sistema bancário nacional, não falta dinheiro!
A deputada Heloísa Apolónia referiu mesmo que o empréstimo ao Fundo de Resolução para o Novo Banco poderia servir para 45 anos de apoio às artes e a margem do défice, décimas abaixo do previsto, seriam 80 anos de apoio.
O velhinho Karl Marx continua a ter razão: a infra-estrutura continua a condicionar a superestrutura. O capital manda claramente nas ideias, nos valores, na criação, nas artes, na cultura.
Tem inteira razão a contestação ao governo de António Costa por parte dos agentes culturais. Porque a cultura é fundamental para o crescimento do país, é um valor económico elevado e que projecta Portugal externamente.
Tem de ser apoiada, mais que o sistema financeiro, que só desgraça o país e os portugueses, com as suas trafulhices.
A cultura era um dos sectores em que António Costa prometia apostar, em contraponto com o flagrante desinvestimento do anterior governo da tróica, que só valorizava cortes, reduções, despedimentos, falências. Não era difícil a Costa prometer melhorar as coisas, tão no fundo haviam batido.

O problema é que não chegam as boas intenções. É preciso alargar o investimento num sector tão fundamental da vida colectiva, que os governantes gostam de usar na lapela e nas suas campanhas eleitorais: o apoio dos artistas, dos homens de letras, dos músicos, dos criadores.
Que país sobreviveria sem música, sem teatro, sem cinema, sem espectáculos, sem sonhos, sem magia, sem imaginário?
Para que o país seja culto, livre, criterioso, consciente da sua cidadania e da sua capacidade de escolha, os governos têm de apoiar as suas artes e a sua cultura. Não como quem dá esmolas a pobres, ou subsídios a dependentes mas como quem aposta seriamente num país melhor, mais desenvolvido, com cidadãos que possuam um maior espírito crítico e um sentido democrático.
A cultura não é uma despesa, mas um investimento num povo mais livre, determinado e apto a enfrentar mais conscientemente os desafios do presente e do futuro. Um governo que não compreenda este princípio básico não merece o apoio dos seus melhores.
A questão, claramente, não é de falta de meios; a questão é de prioridades!

2 A rede social Facebook, que se tornou já um vício ou até uma dependência patológica para tanta gente, está na ordem do dia, e não pelos melhores motivos, como saberá quem anda ligado à actualidade.
O Facebook tem a capacidade de aproximar gente que está a milhares de quilómetros, mas a maioria das vezes acaba por distanciar e afastar as pessoas que estão lado a lado ou na vizinhança.
O mais recente escândalo que abalou a credibilidade desta rede social tem a ver com o uso despudorado, em 2016, de dados de 80 milhões de americanos em favor da candidatura e da eleição do mais anacrónico dos presidentes americanos, Donald Trump.
É claro o menosprezo deste capitalismo selvagem, de claros objectivos políticos, pela privacidade dos utilizadores da rede social, que não se coíbe de dar azo a utilizações menos escrupulosas dos que vão diariamente navegando pelas páginas desta rede social, que hoje por hoje tem mais de dois mil milhões de usuários. Que, potencialmente, valem muito dinheiro, e é por isso que as empresas criam algoritmos que vão desenhando cientificamente os gostos, as preferências e até as taras dos utilizadores, de modo a venderem os produtos mais certeiros e a ganharem rios de massa, com essa exploração de que nem conta nos damos.
Como alguém escreveu por estes dias, bem a propósito, hoje é cada vez mais difícil confiar nas empresas onde depositamos os nossos dados. E vale a pena rever tudo aquilo que já aceitámos que fizéssemos com essa informação. O uso prolongado do Facebook e de outras redes sociais pode afectar gravemente a sua saúde.
As redes sociais, e neste caso o Facebook, acabam por utilizar dados das nossa privacidade, que vendem a terceiros, para fins políticos ou comerciais, sem o nosso consentimento e sem que saibamos os fins a que se destinam. Dados que rendem dinheiro ou votos, à custa dos utilizadores.
É esse o lado negro dos dias que vão passando!...

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