Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Não dá

Escrever e falar bem Português

Ideias

2017-01-29 às 06h00

José Manuel Cruz

Um dia haverá um furacão que o meteorologista de serviço apelidará de ‘trump’. O fenómeno atmosférico terá de ser de grau 5 extra, com vagas de submersão de 10 metros e ventos constantes superiores à velocidade de levantamento de um A380 atafulhado de estupidez.
Será uma homenagem merecida, penso, e, à altura do infortúnio, o inverosímil estadista já andará a passear penteados modernos pelos jardins do paraíso. Bem sei que discordarão da deliberação do juízo final que aqui antecipo, mas Deus há-de preferir tê-lo por perto, que sempre lhe trocará melhor as voltas. No fundo, Trump e o Demónio, juntos é que não dá.

Não há quem perca oportunidade de fazer piadas com as bacoradas do homem. E eu, que tenho feito algumas, no fundo estou-me nas tintas. Que o mundo é um sítio pior, mais perigoso e imprevisível, sob Trump - dizem. Que todos os pesadelos são hoje mais substanciais do que a farinha com que cozemos pão - apregoam. Não me preocupo, eu, com aquilo que Trump possa fazer, ao México ou à Europa, à China ou ao sereníssimo reino do Butão. Comerá Trump por engano, um dia, trufas nunca antes provadas, de estirpe melhorada geneticamente por expedito maître gourmet de afamadíssima academia culinária dos arredores de Langley: «Gostou, senhor Presidente?». «Olha, foi-se, que chatice!».

Não, não é com Trump que eu me delicio, mas com a nação americana por inteiro. Trump não foi eleito por força de um acto irreflectido: o homem galgou etapas! Bateu oponentes, próximos e afastados! O partido contrário não foi capaz de apresentar uma candidatura ganhante! Que a Clinton teve mais uma porrada de votos - dizem, descarregando mágoas, os adeptos do ‘está tudo bem, Trump é um entorse’.

Mas como é que um Obama, que não teria governado mal, conseguiu preparar caminho para o abécula? Eu, perdoem-me, mas estou que não percebo. Que o povo, gorduroso e inculto, avalia com as beiças de trás, o que deveria analisar com os neurónios do lobo frontal - fazem correr vagas de elitistas envernizados. Baralham-me, e eu acho que já não dá. Preciso de reformar um Gauss decadente.

Moço era eu, e ensinaram-me que determinados fenómenos - até opiniões, respostas atitudinais - mobilizavam uma confortável maioria em torno do bom-senso, de um centro anódino, conformista. No fundo, que, de asa de frango numa mão, e coors na outra, não haveria, entre os 68% de banais cidadãos americanos, quem, entre arrotos de felicidade, pudesse ponderar voto em Trump. Vejamos: Trump não é mais do que um Tino de Rãs com cabedais. A malta bebe umas bejecas, mas fica por aí.

Só que não ficou! A democracia falou mais alto - arengam os puristas do sistema. Pois eu estou pelos cabelos com as democracias que elegem Trump, e que podem eleger a amiga Marina. Não é, esta, a democracia com a qual eu aspiro a ir para a cama. Vão por mim: já não dá. Trump só pode ser consensual num regime sem pés nem cabeça, e eu quero saber a quem devemos pedir responsabilidades por este ‘novo normal’.

Razões tinha a uma certa Nelinha, quando, a medo, perguntava se não estaria na hora de suspender a democracia. Mas como crucificaram a moça! Olha, muitos dos que, hoje, entendem que só por perversão democrática um Trump come ovos mexidos com bacon no Salão Oval.
Como quer que seja, eu, aqui, lavro sentida homenagem: Trump, dá-me a camisola! (Estive para dizer: faz-me um filho, mas ele era moço para me mandar a eslovena, e eu ficava à nora).

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