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“Não cometer erros ou o risco de decidir…”

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

“Não cometer erros ou o risco de decidir…”

Ideias

2024-01-08 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

O final do ano aproxima-se, aparentemente, cada vez mais rápido e inexorável, mas na verdade, no mesmo ritmo e cadência temporal de sempre. Afinal, o tempo não é mais rápido ou lento cada ano que passa. A nossa percepção sobre esse tempo é que se altera em função do nosso contexto e envolvente.
Apesar da sua velocidade constante e mutabilidade de percepção também constante, existe um consenso alargado, tão alargado que, porventura, nos poderá levar a falar em unanimidade, de que este é um tempo que se propicia a balanço, seja de natureza obrigatória ou pessoal, público ou privado, profissional ou relacional. É um tempo de “olhar para trás” tão criticamente quanto possível, de “olhar para a frente” tão esperançosamente quanto a nossa capacidade de superar problemas e dificuldades, de projectar desafios, conquistas e atingir resultados desejados.

O ano que agora se aproxima do seu fim foi, e está a ser, pródigo em factos e contextos que nos surpreendem e influenciam determinantemente o nosso quotidiano. Internacionalmente, a guerra assume protagonismo, as alterações climáticas são foco e tema de consenso e discussão, promessas não cumpridas e acordos renovados e invade-nos uma generalização de não domínio e “controlo” sobre inteligência artificial, redes sociais, populismo e a inevitável e sempre presente pobreza. No país, o governo demite-se, a oposição surpreende-se, a presidência da república enreda-se, as instituições gaguejam e a população vive a dicotomia de um quotidiano que aparenta “não ser tão mau como profetizam” e uma realidade “bem mais difícil” do que aquela publicitada.
Trata-se, pois, de um balanço complexo que o autor deste texto não ousa fazer nem o espaço reservado para o mesmo é capaz de albergar.

Todavia, algo há que chama a atenção em particular: neste afã comunicacional, de campanha que, ainda não tendo oficialmente começado, há muito se instalou, a menção recorrente de que um político é melhor, vale mais, revela-se capaz… “porque não comete erros”, estando isento de falhas e omissões, tergiversações e contradições.
Nesta multiplicidade de actividades, escolhas e eleições, de confronto, comparação e caracterização de pessoas, candidatos e incumbentes, surpreende esta expressão “é bom porque não comete erros”. E surpreende negativamente, não porque necessariamente mau (pelo contrário), mas, sobretudo e fatalmente, porque se revela sinónimo da negação do acto político e do seu exercício pleno. Isto é, porque traduz uma actividade comandada e inibida pelo medo de errar – levando a abdicar de opções e decisões, a ser conservador e a cristalizar – e não pela convicção da decisão – levando a perseguir vontades, sonhos e projectos. Porque leva a que se perca o foco no futuro e se se limite ao presente e à gestão da “coisa quotidiana”.

Política, quando verdadeira, intencional e emocionalmente exercida, quando adoptada para fazer e concretizar singularidade e benefício, mudança e caminho – obrigando a arriscar, experimentar, estudar, testar, reverter, corrigir, voltar a tentar, … - faz parte do seu dicionário central e não deveria ser factor castrador, antes motivador. O erro não é (o mais) importante e determinante. “O que faço” com o erro e a forma “como o supero e evito a repetição” é que é diferenciador e qualificador. E aqui é que deveria estar a avaliação. E o foco da escolha!
Confesso que este facto é sinal dos tempos e retrato maior desta fraqueza que nos invade, desta higienização que nos normaliza e nos equipara, deste imediatismo que não deixa ver para lá da espuma do próprio dia. Querer fazer do erro anátema do quotidiano e de quem gere e comanda; querer fazer do erro fatalidade é condição que nos parece tolher, mas, em simultâneo, satisfazer, tão “inebriados” e absorvidos ficamos com o “ruído” que esse erro gera.
Entre aquele que nada faz e, por isso, não erra e aquele que erra porque faz e, depois, tenta corrigir, superar, alcançar, acrescentar, reparar e conquista… onde ficamos? E, entre balanços e contextos, constatações e interrogações, escolhas que emergirão como inevitáveis e necessárias… Bom 2024!

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