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Ideias

2012-06-21 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

As eleições gregas do passado Domingo, que ditaram a vitória dos conservadores da Nova Democracia (29,3% dos votos), parecem ter trazido algum alívio. Desde logo, à própria Grécia, onde a corrida aos levantamentos bancários abrandou e a tensão nas ruas diminuiu; e também à Europa, mais sossegada agora com a vitória de um partido pró-euro e pró-resgate e que, ao que tudo indica (escrevo no dia 19 à noite), formará governo com os socialistas do Pasok (12,3% dos votos) e com a Esquerda Democrática (6,2% dos votos).

As eleições gregas foram, paralelamente, a resposta do Povo grego à Europa e a si mesma, em particular, aos seus grupos de extrema-direita que têm beneficiado das angústias geradas pela presente crise económica e social. Os gregos responderam que estão na e com a Europa, com o Euro, e com a Democracia. Mas há francamente que moderar o optimismo.

Afinal, o governo de coligação espelha bem menos a vontade dos eleitores gregos (27,1% dos votos ficaram na esquerda radical do Syriza, que se recusou a formar qualquer coligação “pró-troika”) do que a necessidade de corresponder a expectativas internacionais que pendem sobre a Grécia como lâminas.

Afinal, a extrema-direita obteve 6,9% dos votos, ou seja, 18 lugares da casa da Democracia grega para retórica neo-nazi, consolidando assim os resultados de Maio passado e ficando inclusivamente à frente da Esquerda Democrática nos resultados de 17 de Junho.
Afinal, 37,5% dos eleitores gregos preferiu, simplesmente, não votar.

Entretanto, sinais dos tempos e dos novos equilíbrios que se avizinham na balança de poder internacional, os BRICs exigiram na Cimeira do G-20 ocorrida esta semana em Los Cabos no México, que se efective a reforma do FMI acordada em 2010. A reforma aumentará o poder negocial destes países dentro do FMI, alargando a sua zona de influência no Mundo, em troca do aumento das suas quotas de participação para o Fundo Monetário (o acordo estima uma transferência de mais de 6% para as quotas das economias dos mercados emergentes).

Mais poder para os BRICs em troca de maior apoio ao FMI, e assim, indirectamente também, às democracias da velha Europa. Poderá esta exigência dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e também África do Sul desde 2011) reflectir um efectivo aumento da sua capacidade negocial? Por outras palavras, assumindo que a capacidade de afectar a balança de poder internacional implica capacidade efectiva de ditar a agenda, o rumo, e os processos de decisão que afectam a comunidade internacional, nomeadamente em sede de instituições fundamentais como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Banco Mundial, ou o FMI, então, talvez seja muito cedo para falar na afirmação dos BRICs (ou BRICAs) como novas potências liderantes do sistema internacional.

Há de facto quem desvalorize o actual poder dos BRICs, sublinhando que estamos perante cinco países profundamente heterogéneos entre si (a Rússia, por exemplo, nem chega a ser um emergente, mas uma antiga super-potência, o que lhe confere uma condição algo estranha no seio do grupo) e dentro de si, divergindo no que dinamiza e refreia as suas economias, nas regras de funcionamento dos seus regimes políticos, nos valores societais que norteiam esses mesmos regimes; nas suas estruturas sociais, e na sua enorme diversidade cultural.

Em simultâneo, os diversos desafios estruturais que cada um tem ainda de enfrentar, são demasiado exigentes no que toca ao cumprimento de reformas de fundo de muito difícil prossecução. Além de tudo isto, os próprios BRICS são muito menos coesos do que tendemos a imaginar.

A China por exemplo, negou-se em 2010 a apoiar o Brasil na pretensão de reforçar a sua posição de comando na estrutura do FMI. Da mesma feita, quando se fala na conquista de lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e não obstante no plano bilateral parecer haver maior receptividade à ideia, a verdade é que até ao momento a China se recusa a dar qualquer passo que possa declaradamente contribuir para suportar as pretensões de entrada do Brasil, Japão, India e Alemanha.

Mas se é certo tudo isto, também não é menos certo que estes países, de economias já bem mais do que simplesmente emergentes, são aqueles de que as nossas democracias irão depender cada vez mais no futuro. A sua crescente relevância na geopolítica mundial e o gradual aumento da sua capacidade negocial poderão assim no futuro resultar menos do pleno sucesso das suas reformas internas e da sua coesão externa, do que da efectiva diminuição do poder da Europa por via da profunda crise económica de que tarda em recuperar. A Europa em contra-relógio, ouvia a Grécia dizer no início desta semana que terá governo ‘logo que possível’. Mas o Tempo da Europa, esse, parece aos poucos já ter-se esgotado…

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