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Muro de Gelo

O que é a solidão?

Muro de Gelo

Voz aos Escritores

2019-11-15 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Não esquecerei aquele Domingo de Agosto. Era o dia treze, data de mau agoiro, do ano mil novecentos e sessenta e um. Os berlinenses despertaram alvoroçados pelo bulício das ruas, assomaram às janelas, desceram degraus chinelados, saíram das casas remelentos, descabelados, berlinenses intrigados, ofuscados pela luminosidade que ocultava o pronúncio da obscuridade. A Operação Rosa iniciava-se sob o espanto matutino, o desespero mudo da gente, corpos incrédulos, tolhidos pelas armas em riste dos soldados, corpos rendidos aos quereres despóticos dum punhado de poderosos. Berlim, cidade por onde escoavam mares de gente vinda dos países subjugados ao regime soviético, era uma brecha na Cortina de Ferro, a cerca metálica da Guerra Fria, a grade política, odiosa, trepadeira venenosa plantada no final da Segunda Guerra Mundial quando os Aliados dividiram os despojos duma Europa desfeita, trucidada, enlutada, cujos escombros denunciavam o maior conflito bélico da História da Humanidade. Na capital da Alemanha urgia estancar as marés de gente, urgia proteger os berlinenses orientais do marmoto imperialista, do tsunami capitalista, proclamavam, demagogos e interesseiros, os próceres da República Democrática Alemã, dirigentes focados na edificação da barragem bloqueadora das vagas humanas, o Muro de Gelo, o muro da vergonha, o muro da mentira que não derretia, o muro que era o seu poleiro, um pedestal de betão com três metros e sessenta centímetros de altura que os elevava ao patamar dos intocáveis.
Não esquecerei aquele Domingo de Agosto, a incoerência do nome Operação Rosa, uma plantação de arame farpado, um emaranhado de espinhos estéril de flores onde desabrochavam os vindouros horrores. Volvido um par de dias, iniciaram a construção do Muro de Berlim, um muro erguido na prepotência, na ambição pelo domínio, um Muro de Gelo, frio como a guerra que o sustinha, a mais cobarde, a mais manipuladora, a mais mafiosa, a mais camuflada e calculista das guerras: a Guerra Fria. O muro dividia Berlim, acutilava praças, pontes, ruas, apartava amigos, noivos, famílias, o muro demarcava ideologias. Era uma serpente branca que encurralava milhões calados de opiniões a sobreviverem na ameaça e no pavor das prisões, marionetas nas mãos gananciosas e inclementes dos soberanos vilões.
O Muro de Gelo ensombrava a Liberdade. O Muro de Gelo enregelava a vontade.
Não esquecerei as janelas entijoladas dos prédios de Berlim Leste vizinhos do Muro de Gelo, familiares do outro lado da muralha em escadotes dependurados, a acenar lenços de lágrimas molhados, os entes queridos pelo muro separados, berlinenses do Leste de braços manietados, bocas de medo amordaçadas, olhares de medo tombados, mãos de medo acanhadas, os guardas fronteiriços armados, autorizados a disparar, a matar os fugitivos, os traidores da paternal nação, as torres de vigia, a electrificada vedação, as barreiras anti veículos, a Terra de Ninguém, faixa entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental, Terra da Morte onde dezenas tombaram fuzilados pelas costas, extorquidos da vida, da Liberdade pelos sonhos prometida, a Liberdade para lá do Muro de Gelo, o muro que não derretia e o anseio por vidas engrandecidas demolia.
Não esquecerei o olhar triste dos berlinenses do Leste, olhar desconfiado, encovado, o medo de serem à STASI delatados, a polícia do Estado que prendia sem apelo nem agravo, torturava, matava, premiava os acusadores, semeava câmaras e auscultadores, a omnipresença de um Estado que se dizia zelador, um Estado que se proclamava benfeitor. Os berlinenses de roupas empobrecidas, eternos sacos esquálidos nas mãos dependurados na ânsia de os engordar de bananas, queijos, enchidos fumados, papel higiénico, pepinos enfrascados, se por rara fortuna os encontrassem nas prateleiras esbulhadas das mercearias, filas e filas, horas e horas, corpos doridos, rendidos à impertinência da fome. Os berlinenses de bocas aguadas a mirarem de viés os restaurantes, os bares, as montras das lojas recheadas, espaços interditos, destinados aos membros do partido e seus ilustres convidados, espaços de fachada, de vivência ludibriada.
Não esquecerei o dia em que me prenderam, atormentaram, injustamente me acusaram. Por conversas sussurradas e pelas paredes das celas, num código sonoro, partilhava com os outros presos políticos os podres do regime, o mercado negro, os privilégios, as delações, os subornos, as impunidades dos simpatizantes, as violações das normas da O.N.U., o tráfico de armas que alimentava os cofres depauperados da R.D.A., fomentava as guerras em Angola, na África do Sul, a venda de sangue e de órgãos humanos, as experiências científicas e farmacológicas das empresas de outros países nos doentes da Alemanha de Leste, os filhos retirados aos presos políticos, órfãos de Pais vivos em orfanatos enclausurados, a lavagem cerebral aos miúdos apavorados, Foram os vossos Pais que vos abandonaram, Não presta, a tua Mutti, Não vale nada, o teu Papi, mas o Estado cuida de vós, não vos preocupeis, meine liebem, amem a nação acima de tudo e de todos.
“Ich bin ein Berliner”, dizia John F. Kennedy, “Tear down this wall”, exigia Ronald Reagan, mas o Muro de Gelo prevalecia, um iceberg que naufragava um povo roubado de democracia.
Não esquecerei o dia nove de Novembro de mil novecentos e oitenta e nove, o dia em que o Muro de Gelo derreteu, o calor humano, o infindo desfile dos Trabant, a euforia, as canções, os beijos, os abraços ofertados há vinte e oito anos em camisas-de-força estrangulados, a abertura da fronteira, a unificação de Berlim, a Liberdade.
Hoje, passadas três décadas, não esqueço as mais de setenta barreiras que há na Terra, o Mundo da globalização conspurcado pelas vedações, fronteiras e fortificações, o Mundo do medo, o Mundo dos muros, o Mundo que continua a ser a Terra das Ilusões.

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