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Ideias

2022-02-19 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

1938. Final de abril. Munique. Conferência organizada apressadamente por Hitler, sobre o futuro da então Checoslováquia. Pequeno pormenor: os Checoslovacos não foram convidados (nem compareceram, mesmo entrando, porventura, pela “porta dos fundos”), para discutirem o seu próprio futuro. Na realidade, vinte anos após o fim da 1ª Grande Guerra, o clima de tensão sentia-se novamente na Europa. Numa Europa ainda sem grande reação perante o emergir do nazismo e de Adolf Hitler. Numa Europa que tinha assistido à chegado ao poder, pela via democrática, formalmente legitima, de um (diríamos hoje) líder “populista”, carismático e decidido a usar a força da retórica e do empolgamento discursivo para (antevia-se) incrementar um plano global de domínio totalitário. Um génio ou um louco ou, simultaneamente, um pouco de ambos? Era, em muitas mentes europeias de então, a questão que se colocava (nalguns casos, a questão que fascinava!)

… (Em nota lateral, recordo algumas teses lidas em França, suplementarmente às narrativas histórica e política dominantes: Hitler e o seu fanático “núcleo duro”, seriam todos consumidores viciados de cocaína e aditos em outras substâncias de efeito similar. O que – segundo esses Autores/Historiadores – terá contribuído, também, em alguma medida e em certas circunstâncias, para a tomada de decisões notoriamente alucinadas e insanas, pelo “estado-maior” nacional socialista) …
Na conferência de Munique compareceram, para além do anfitrião, Mussolini, Déladier (presidente do conselho de ministros francês) e Neville Chamberlain, o primeiro ministro inglês. Ressurgia, em força e no interior da Alemanha, uma onda pan-germanista, insuflada e aproveitada por Hitler.

A pretensão nacional-socialista era a da anexação de parte da Checoslováquia – a zona do Sudeto que integrava a Boémia e a Morávia – onde viviam cerca de 3 milhões de alemães ou de descendentes de alemães. Decidiu-se, em Munique, a entrega dessa parte da então Checoslováquia, à Alemanha nazi, a troco de uma suposta garantia de paz, prestada por Hitler. Chamberlain regressou a Inglaterra aplaudido como um obreiro da paz. Acenou à multidão que o aguardava com um papel branco – o Acordo de Munique, assinado por Hitler – enquanto descia do avião que o trouxe de volta a Inglaterra.
O resto, o resultado do fluir da História pós-conferência de Munique (ainda hoje, denominada na República Checa por “a traição de Munique”) revelou que, afinal, Chamberlain teria sido enganado, que Hitler nunca quis acordo algum (embora o tenha, sem pestanejar, assinado) e que, na realidade, um papel branco, muitas vezes, nada mais é do que uma simples folha de papel!

Menos de um ano depois, as forças de Hitler entraram e anexaram toda a Checoslováquia. A 2ª Guerra Mundial eclodiu e a História da Europa/da Humanidade mudou traumaticamente. Chamberlain terá sido ingénuo e enganado ou terá mesmo conseguido ganhar algum tempo para que a Inglaterra se tentasse preparar e proteger, prevendo já a inevitabilidade da guerra?
Retorno a Munique e a este episódio marcante da História da Europa, por dois motivos: a Netflix produziu e tem em exibição um excelente filme sobre aquela Conferência de 1938 (“Munique”), com um desempenho superlativo de Jeremy Irons no papel de Chamberlain; o que se passou na Crimeia e o que atualmente observamos, com muita expetativa, passar-se na fronteira da Ucrânia com a Rússia, fazem-me recordar, inevitavelmente, Munique. Talvez injustificadamente, espero eu!
No entanto, a História é também um permanente convite e desafio para especularmos sobre a nossa atualidade.

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