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Mundo que não é o meu

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Mundo que não é o meu

Ideias

2020-03-06 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Mundo risível é o meu, em que um Juiz não trafica uma sentença, em que um tenente de juízes não industria um inferior hierárquico e cúmplice no sentido que mais convenha a alguém que questão seja despachada. Mundo de igualdades risíveis é o meu, em que as riquezas e as categorias senhoriais contam tanto como o bafo avinhado e camisa rescendente a catinga de branco, esse suor ressequido e entranhado que ripa as narinas de um incauto ao desfazer de uma esquina. Quanto não agonio com esse perfume rasca! Pois do mesmo vómito sou protagonista, só de me lembrar, sem vista nem cheiro, que por mim passe togado de aluguer.
Se uma andorinha não faz a Primavera, raras não serão as sentenças, os acórdãos, repassados a glândula de poupa? Por outro lado: Justiça de favor? Olha a novidade! O estranho, mesmo, é o caso ter rebentado, vá-se lá saber por que zanga de comadres.

Mundo transparente o meu, em que rufia de anjo não se indumenta, nem altares granjeia por conta de virtudes que não tenha. Que vimos nós, vai para dias? Filmagem sem censuras, autoridades fronteiriças gregas rechaçando um insuflável com migrantes, cabeçadas de proa, mais tiros de intimidação de arma baixa. Uma criança teria caído à água e perdido a vida, ouvimos dizer. Vamos acreditar que a vítima foi empolada. Prefiro assim. O engraçado, se o posso dizer, é que o assunto foi varrido de ecrãs e antenas, como se uma censura – agora sim! – determinasse que, hediondo episódio, melhor fora que o esquecêssemos. Cisão de solidariedades: como não estar do lado de quem foge a misérias e mortes adiadas. E, ao mesmo tempo, como não estar com gregos, fartos de se prestarem a acomodar problemas para os quais não têm solução.

Quem guerras cria, que levas intermináveis de deslocados engendram? Pois esses, os rufiões, por muito que propalem que lançam as guerras em nome da paz. Digamos que a nossa inteligência comezinha não nos permite traçar boa linha de fronteira entre um facínora puro e duro, e um sanguinário disfarçado de bom rapaz. E a ONU? Não, não me refiro ao Conselho de Segurança, que é besta irracional com ladainhas inquinadas. O Secretário-Geral, mesmo, que por acaso é o Guterres, mas outro poderia ser. Que papel na história se forja, a consensual figura de proa da ONU? Se artes não tem para se alcandorar a fautor da paz, a acusador incontestado de semeadores de dor e discórdia, porque se mantém em funções?

Comecem as guerras antes tarde que cedo, e concluam-se antes cedo que tarde. Termina, uma guerra, quando se estabelece quem a ganha e quem a perde, quando se determina quem foi o agressor e a parte agredida, e a que compensações fica o atacante obrigado, por reparação das devastações infligidas. Digamos que os EUA, por si e por testas de ferro, não se querem dar por agressores, nem por perdedores, e que aposta mantêm no que tarda em acontecer – a deposição de Assad. Não podemos nós, europeus, decidir de outro modo? Porque é que temos de andar de termómetro e antipiréticos, não vá o Erdogan cair em psicose febril? Morrem-lhe uns quantos soldados, que não deveriam estar em território sírio, por conseguinte, na posição de força ocupante. Abespinha-se e retalia em todas as frentes, obuses para um lado, refugiados para outro. Já o sabíamos, mas agora ficamos mesmo esclarecidos: os refugiados são arma de arremesso, no fundo, nem pessoas são.
Tudo me fere: quero cegar, ensurdecer, enlouquecer, talvez assim o planeta fique aceitável. Quero, sobretudo, que me expliquem quem são os maus da fita, mas à luz do direito internacional.

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