Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Mulheres na política? 'Deus nos livre!'

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2014-03-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Por diversas vezes surgem análises às posições de destaque que as mulheres têm, cada vez mais, na nossa sociedade. Quer na política, quer na educação, quer na medicina, quer no mundo empresarial, em todas estas áreas as mulheres vão-se afirmando.

Num dos direitos fundamentais do ser humano, o direito de voto, as mulheres portuguesas sempre foram relegadas para segundo plano, tendo inclusive existido um caso hilariante em 1911, quando Carolina Beatriz Ângelo, que era viúva, invocou em tribunal o direito de votar, pois era 'chefe de família'!
Essa sua determinação permitiu que tivesse mesmo votado nas eleições constituintes, realizadas a 28 de maio de 1911. No entanto, pela Lei nº 3 de 3 de Julho, do ano de 1913, ficaram desfeitas todas as dúvidas ao esclarecer-se que “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos”.

Contornada desta forma a lei, também com ela as mulheres portuguesas foram controladas, não pudendo portanto exercer o seu direito de voto. A partir daí tudo se manteve calmo, até que passados quinze anos surge da Inglaterra a notícia segundo a qual o respectivo Governo estava preparado para submeter a aprovação do Parlamento uma proposta para conceder o direito de voto às mulheres que tivessem mais de 21 anos.

Quando em Portugal se soube dessa proposta, de imediato se levantou um conjunto de protestos, uma vez que os homens portugueses receavam que essa lei inglesa influenciasse as mulheres portuguesas. Dessa forma, na época, a imprensa passou logo a exercer uma pressão enorme contra esta possibilidade. Em Braga, onde a religiosidade se fazia sentir de forma intensa, os jornais resolveram ridicularizar a possibilidade das mulheres votarem e até exercerem cargos políticos.

O jornal “Diário do Minho”, na sua edição de 23 de Abril de 1927, foi esclarecedor quanto a esta possibilidade. Referiu que se essa proposta fosse aprovada em Inglaterra, de imediato exclamariam “as senhoras feministas de nariz no ar” que se tratava de um “Triunfo da Mulher”!
Esta proposta ainda nem sequer tinha sido aprovada em Inglaterra, nem sequer se estava a desencadear qualquer tipo de procedimento para que a mesma fosse adoptada em Portugal, já esse jornal afirmava que as mulheres, se pudessem exercer o seu direito de voto, seria uma “coisa ultra-lamentavel, um «desvio» que nós outros, os que queremos a Mulher simplesmente Mulher, não podemos levar a bem”.

A possibilidade de voto das mulheres era de tal forma preocupante já que, ainda segundo a mesma fonte, a mulher faria uma figura “tristíssima”, quando dentro de casa a sua ideia de voto ousasse ser contrária à do seu pai ou do seu marido! Imaginem as consequências?

Havendo a clara percepção que no movimento político português existiam várias pressões, os homens portugueses ficaram alarmados com a possibilidade das mulheres serem subornáveis: “Deus nos livre! - que a Mulher seja, eleitoçoeiramente falando, subornável”! Este alarme era ainda mais visível, pois a mulher não estava livre “de lhe namorarem o voto”! E se isso acontecesse, que haveria “ela fazer - se o não é tão feio na linda boca de uma mulher”?
A preocupação de uma parte da sociedade bracarense, expressa no jornal mencionado, atingia momentos de maior preocupação ainda: imagine-se, pois, o que seria ao homem, que chegava a casa, cansado das dificuldades da vida, das amarguras do trabalho, “do inferno da vida lá fora, a detestável política” que muitas vezes só eram esquecidas pela “força do carinho” que a mulher lhe dava? Imagine-se pois se o homem, em vez de encontrar o apoio na sua mulher, entrava ainda em discussão com a esposa sobre as curiosas “barbas de Lenine” ou sobre “o comentário á ultima tirada romântico-politica do sr. Cunha Leal, de efeito seguro no reumático”?
A mulher na política não seria “decididamente, maravilha nenhuma” pois só traria males à sociedade: ao marido, que até então procurava apoio no lar e aos filhos, que seriam abandonados pela própria mãe!

Numa sociedade evoluída, como então se julgava ser a portuguesa, a mulher tinha a obrigação de dedicar todo o seu tempo aos filhos, que eram “uma prisão” e ainda o dever de “acompanhar o homem (ou de ser acompanhada por este) nas jornadas patrióticas…”.
Há pouco mais de oitenta anos, em Portugal, considerava-se que “levar para a política a mulher é cometer um crime. É como que arrancar á flor o perfume; é transformar numa arena de feras, o que só devia ser mansão de paz e amor…”.

No mês seguinte (Maio de 1927), foi publicado em Portugal um diploma que regulamentava o trabalho das mulheres e dos menores, onde se esclarecia que as mulheres não podiam exercer trabalhos noturnos, a não ser por motivos de força maior; nos hotéis e restaurantes, não podiam trabalhar para além das 22 horas, a não ser que fosse passada “licença pela Circunscrição Sanitária”; também os “trabalhos subterrâneos” eram proibidos às mulheres…

Uma última referência: no dia 2 de Abril de 1976 foi publicada a nova Constituição da República Portuguesa, onde ficou expresso que “o sufrágio é universal, igual e secreto e reconhecido a todos os cidadãos maiores de 18 anos (…) e o seu exercício é pessoal e constitui um dever cívico”.

Como vemos, existem determinadas decisões que são tomadas e, passado pouco tempo, acabam por ser ridicularizadas.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho