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Mulheres da Minha Vida

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Mulheres da Minha Vida

Voz aos Escritores

2023-03-10 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Março, mês do Dia da Mulher. Desfilam na minha mente as Mulheres da minha vida, as que cá estão e as que partiram, mas que vivem em mim, a Morte não tem primazia se os idos são recordados, enquanto houver memória deles, viverão na Terra e nos corações dos que os amaram. A minha Avó Amélia partiu há um ano, vítima do Covid 19. Tinha cem anos. Foi abençoada com uma vida boa e longa. O meu Avô Páris, seu marido, amou-a muito e os quatro filhos que lhes nasceram sobreviveram-lhes e sempre foram bons filhos. A minha Bisavó Virgínia, a quem chamávamos Avó Gi, Mãe da Amélia, não teve a mesma sorte. Viu partir antes de si uma filha de meses e um filho adulto, o tio Benvindo. Nos olhos cegos por um glaucoma da Avó Gi vi muitas lágrimas de sangue, lágrimas da dor insuperável de Mãe mutilada de filho, dor que nunca a amargou, a Avó Gi ofertava genuína doçura nas palavras meigas e nos gestos ternos que palpavam os rostos dos descendentes, Deixa-me ver-te, Joaninha, pedia-me, e eu es- tendia-lhe a face e ela encenava um bailado no palco do meu rosto e dizia, És tão bonita. Eu via beleza nos seus gestos e no seu sorriso de olhar fixo num ponto distante, indefinível, como se na infinitude do Universo procurasse o sentido da vida e da Morte que lhe roubara os filhos, e da cegueira que lhe toldava o Mundo mas não lhe ofuscava a clarividência. A minha Avó Amélia, sua filha, casou com dezassete anos e queixava-se de ter gastado a juventude a cuidar dos velhos da família. Tardes e tardes a jogar às cartas com eles e a deixá-los ganhar para que os velhos não rezingassem. Era senhora de um carácter rijo, cuja boniteza acentua-va.
A postura régia, os olhos azuis e a pele nívea, que se manteve lisa e sem o mapa das manchas da velhice até ao fim, destacavam-na das demais Mulheres. Para mim, a minha Avó Amélia, Avó Rica, como eu lhe chamava, era uma fortaleza, o seu vinco autoritário dava-me segurança e não a inibia de me mimar no seu jeito sóbrio mas profundo. Eu era uma criança dócil e aceitava os seus ensinamentos para que fosse perfeita como dádivas do seu grandioso amor. A Avó Rica contava-me que adorava o Pai, o meu Bisavô Gomes, homem de posses, respeitado, e que quando ele morreu, ela desmoronou, deu-se à tristeza e indignava-se com a alegria das moças nas verbenas, assim se chamam os bailaricos em Monção, cuja música escutava ao longe estirada no seu leito de luto. Esta confissão, fez-me ver o sentimentalismo da minha Avó, uma fortaleza inexpugnável que, como todos, tinha as suas debilidades. Era religiosa, católica convicta, inteligente, lia os jornais todos os dias, era culta. Viveu a sua longa vida dedicada aos seus, uma entrega sem submissão. A minha Avó paterna, a Avó Marizete, também o era, insubmissa. Ambas cresceram e foram criadas no poder do patriarcado. Ambas tiveram Pais afortunados, homens que a pulso firme erigiram fortunas e que adoravam as filhas e elas os Pais. Ambas rejeitaram os mandos dos homens. A minha Avó Marizete, filha do Pachancho, ficou órfã de Mãe ainda cria de colo, a minha Bisavó Aurora foi ceifada na Primavera da vida pela pneumónica, mas a orfandade materna não lhe roubou a vivacidade e a alegria de viver. Levava a vida sem o peso das mágoas. Também teve quatro filhos e um marido que a adorava, o meu Avô Albano Rito. Era uma Mulher livre, desamarrada dos preconceitos e incapaz de criticar ou julgar alguém. Talvez fosse essa liberdade o que eu mais admirava nela, e também a sua meiguice serena e o seu riso malandro. Eu adorava acompanhá-la naquele bulício contagiante. No seu Fiat, íamos ao Mercado Municipal, depois à Fábrica Pachancho e à respectiva quinta sita nas traseiras do industrial edifício, depois à Quinta de Salgueirô, depois à casa de Infias, para mim um palácio onde a minha Avó me elevava a princesa muitíssimo acarinhada e amada. A minha Mãe, Mulher que me deu a vida, ofereceu-me também a tenacidade. A sua exigência para comigo, fazem de mim uma Mulher perseverante, mesmo nas adversidades. A tia Clara, Clarinha, irmã mais nova do meu Pai, é outra Mulher da minha vida. Somente nove anos distam os nossos nascimentos. Desde que cheguei ao Mundo, a luz do seu nome ilumina-me o caminho. A Clarinha é minha tia, irmã, amiga, Mãe e comadre, o meu amparo nas aflições, uma Mulher livre e espiritual cuja luminosidade cativa. Sou uma borboleta a adejar em torno dela, em busca do seu sublime exemplo. De todas as Mulheres da minha vida a mais importante é a minha filha, o valioso tesouro que me foi presenteado por Deus, a minha razão de viver, o meu amor maior.
Nela perpetuo-me, ela é o seguimen- to insubmisso das Mulheres da minha vida, suas ascendentes, o meu maior or- gulho, que soube acatar os valores dessas Mulheres e que os grita ao Mundo, sem temor nem constrangimentos, honrada e segura, iluminada e conquistadora, num ímpeto justo e audaz que nos faz pensar que, afinal, o Mundo é das Mulheres.

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