Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Mudar mentalidades

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-04-08 às 06h00

Jorge Cruz

Estou plenamente convicto de que olhar em frente, preparar o futuro, continua a ser muitíssimo mais importante do que repisar incessantemente acontecimentos do passado, por mais traumáticos que sejam. Além disso, o reforço da democracia passa indubitavelmente pelo fortalecimento dos partidos, pela sua credibilização, pese embora o facto de hoje em dia, com as alterações legislativas, terem perdido, em relação ao Poder Local, o exclusivo da sua “função de mediação política” traduzida na “organização e expressão da vontade popular” e na “participação nos órgãos representativos”.

Acredito, portanto, que o regime democrático só terá a ganhar com a credibilização da classe política o que, naturalmente, não é compaginável com grande parte das práticas que têm sido seguidas. A confiança dos cidadãos ganha-se ou recupera-se com outro tipo de comportamento, com outro tipo de discurso político, mais verdadeiro e assertivo, enfim, com uma mudança radical de mentalidades e de atitudes.

E com o regresso da ideologia, que tão arredada tem andado e tanta falta faz ao debate político, tenderá a acabar o ambiente democraticamente pouco saudável gerado pelos interesses individuais ou de grupo, pelas agendas ocultas, pela injúria e pela agressividade das mensagens.

Será dessa forma, com o abandono do discurso manipulador e isento de ética, que se poderão criar as condições para um maior envolvimento dos cidadãos, para uma maior participação cívica e política, em particular daqueles que possuem méritos e ideias mas se recusam a renunciar a valores, daqueles que não pactuam com a mediocridade nem com ambientes políticos pantanosos.
Vem esta reflexão a propósito do momento político que atravessamos nos diversos planos - internacional, nacional e local.

Exemplos bem demonstrativos do que afirmo podem encontrar-se quase diariamente na Comunicação Social e, obviamente, não ajudam a credibilizar a actividade política, bem pelo contrário.

Ainda há dias o presidente da Comissão Europeia se envolveu numa polémica desnecessária com algumas personalidades portuguesas, entre as quais dois antigos ministros do seu próprio governo, chegando mesmo a ver desmentidas algumas das afirmações que proferiu. Aliás, também causa muita estranheza a frente de guerra que tentou abrir com um dos vice-presidentes do BCE a propósito do famigerado caso BPN, um processo que é um autêntico caso de polícia e que envolve a política apenas porque os principais quadrilheiros estavam ou tinham estado a ela ligados. Não por coincidência, esta tentativa de demarcação acontece em vésperas do término da longa estadia de Durão Barroso em Bruxelas, uma permanência que não vai deixar saudades a ninguém.

Assistiu-se, por outro lado, a mais uma das habituais trapalhadas do governo, desta vez com um secretário de Estado a anunciar cortes e a ser desmentido pelo Primeiro-ministro. Entretanto, e a outro nível, foi conhecida uma nova prescrição no caso BCP enquanto o jornal I divulgava que são milhares as entidades públicas que escondem os contratos de aquisição de bens e serviços. Segundo o diário, entre as entidades que dão o péssimo exemplo de incumprimento, por não publicitarem os contratos, como determina a lei, encontram-se a Presidência da República e o Parlamento.

Felizmente que a nível local começam a surgir sinais claros de um novo paradigma de gestão autárquica. Um formidável exemplo dessa nova forma de encarar a gestão pública foi-nos dada pela Câmara Municipal de Guimarães com a política fiscal que implementou: o pacote de benefícios fiscais que a autarquia oferece desde há apenas dois meses já gerou 20 milhões de euros de investimento. É indiscutivelmente um modelo que pode e deve ser seguido pelos autarcas que estão verdadeiramente preocupados com a situação económico-social dos seus concelhos e, em particular, com o flagelo do desemprego.

Creio ser chegada a altura de generalizar a atitude de passar das palavras aos actos, como aconteceu efectivamente em Guimarães, e assumir atitudes proactivas que possam corresponder às expectativas que foram criadas nas populações quando lhes foi pedido o voto. Penso, no entanto, que o processo de mudança de mentalidades se está a revelar bastante mais moroso do que seria desejável. E esta constatação é válida não apenas para as forças que conquistaram o poder como para as que se movem na oposição.

Em Braga, por exemplo, já se falou e escreveu abundantemente sobre as causas da autêntica hecatombe eleitoral que o PS registou no final do passado mês de Setembro. Creio que mais de meio ano depois daquela data que se tornou histórica, pelos piores motivos, para os socialistas, o PS já terá tido oportunidade de proceder à análise fria e desapaixonada do que sucedeu.
Estou, todavia, convicto de que não é com divisões profundas como as que continuam a verificar-se, autênticas guerras fratricidas sem quartel e sem fim à vista, que o PS pode almejar vir a recuperar o poder. E com isso perde a qualidade da democracia e perdemos todos nós.

Aliás, mesmo a coligação no poder, que até pode ter-se deslumbrado por aparentemente ter “ganho” novos “amigos” de áreas ideologicamente bem diversas da sua, não me parece que tire vantagens do enfraquecimento da oposição. Tanto mais que os “novos amigos” e as informações que veiculam não são mais do que a imagem que eventualmente será reflectida no futuro, mas com sinal contrário.

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