Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Mudar é difícil

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2015-02-20 às 06h00

Margarida Proença

Têm sido largamente discutidos nos media alguns dos resultados obtidos pela CreSAP; trata-se da comissão, independente, criada para permitir o recrutamento e seleção dos altos dirigentes da administração pública em Portugal, induzindo também por essa via o reconhecimento da relevância da competência técnica e da meritocracia na seleção dos funcionários.

Não tem em si nada de novo - já Max Weber, que escreveu algumas das suas principais obras no início do século XX, há mais de 100 anos portanto, argumentava no sentido de que o recrutamento se deveria basear em informações objetivadas por testes ou exames em concursos, e a seleção em critérios de avaliação e classificação válidos para toda a organização. Desta forma, as competências, as capacidades, o mérito da pessoa face ao cargo em concurso deveriam substituir-se a critérios arbitrários ou subjetivos, sublinhando a imparcialidade do funcionalismo público.

Em Portugal, a perceção de que os dirigentes de topo da “coisa pública” são nomeados livremente em consequência de escolhas políticas, independentemente do mérito, é ainda claramente dominante. jobs for the boys é uma expressão que de facto remete para um quadro onde as pessoas são escolhidas, e aceitam os lugares, como recompensa dos trabalhos ou “ajudas” prestadas, ou na previsão de ganhos futuros. Traz consigo, implícita, a ideia de que podem existir ganhos comuns; a expressão é mesmo inglesa, no imaginário dos velhos colégios da elite aristocrática, onde pertencer ao grupo dava poder e prestígio, abria as portas certas.

Pode não se tratar necessariamente de recompensas, por trabalhos passados ou futuros, mas também a facilidade em delegar em pessoas que não pensem pela sua cabeça, que não tenham a coragem de ser diretamente eficazes e eficientes no exercício dos seus cargos. E isto não é verdade apenas no que se refere à alta administração do Estado; também por aí fora, em muitas organizações públicas, incluindo universidades, se reconhece a importância relativa das escolhas determinadas por quem manda, independentemente de quem possa ter, eventualmente, mais ou menos mérito para desempenhar as funções.

A qualidade das ideias, o conhecimento e a experiência acumulada podem ser menos importantes do que o facto de se conhecer a pessoa, o seu nome, a sua família, o seu clube, ou mesmo reconhecer a capacidade que tem de trabalhar exclusivamente segundo as normas que lhe são comunicadas, nada mais. Todos conhecemos e reconhecemos situações deste tipo, onde a culpa não cabe apenas aos dirigentes, mas também aos que aceitam a moeda de troca.
Na Europa do Sul este tipo de comportamentos manteve-se constante; poucas oportunidades justificam os meios que se utilizam. E no fundo, culturalmente, confrontam-se com uma aceitação generalizada, por quem manda e por quem quer o lugar e aceita a regra. A discricionariedade formal garante o valor instrumental das nomeações.

As mudanças impostas pelas sucessivas alterações tecnológicas, pela globalização e económica e pelas recentes crises económica e financeira exigem contudo alterações estruturais profundas, também na maneira de pensar. As preocupações sobre a transparência e a prestação pública de contas, promovendo a perceção das vantagens da construção de redes entre o Estado, os cidadãos e as empresas, exigem formas capazes de envolver todos na provisão e na governação dos serviços públicos. Neste contexto, cabe aos dirigentes serem líderes, informados, imparciais do ponto de vista político, mas socialmente responsáveis.

Mas é difícil, já que rompe com procedimentos há muito sedimentados no quadro de uma cultura de patronage criticada, mas aceite. Cabe a todos contribuir para a mudança. Experiências como a da CReSAP, apesar das dificuldades que encontram, são o caminho certo, mas que seguramente se terá de fazer da única forma talvez possível - fazendo o caminho.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

14 Dezembro 2018

Amarelos há muitos...

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.