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Mudar atitudes para qualificar a democracia

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

Mudar atitudes para qualificar a democracia

Ideias

2024-01-02 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“Fazer todos os dias as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a maior prova de insanidade.”
(autor desconhecido)

Com um novo ano costumamos receber, como por magia, um reforço de esperança, ou seja, a forte expectativa que melhores dias virão, enfim, a ilusão de que a simples mudança de calendário operará profundas transformações qualitativas no nosso quotidiano.
Esta história repete-se anualmente, quando fazemos votos de que o ano que se aproxima seja melhor. Todos sabemos que a esperança nos dá forças para continuar lutando, mesmo em momentos em que tudo parece estar perdido. Nessas alturas, a esperança faz-nos acreditar que superar os obstáculos e alcançar os nossos objetivos é uma meta perfeitamente alcançável.
Temos, contudo, de estar cientes de que a esperança não é passiva nem é uma varinha mágica. Exige que façamos a nossa parte, ou seja, que a transformemos em realidade, o que pressupõe um duro trabalho de persistência, de aposta contínua nos nossos sonhos. E é isso que frequentemente tem faltado. Daí que, também com a mesma periodicidade, acabemos por constatar o óbvio – os anos são todos iguais, as pessoas e as suas atitudes é que fazem a diferença.

Sendo, portanto, certo que a esperança, por si só, é insuficiente para a mudança que se pretende, fácil será concluir sem quaisquer reservas ou hesitações que tal desiderato depende exclusivamente de cada um de nós, do nosso comprometimento, ao fim e ao cabo, da forma como agimos.
Não basta criar expectativas, absolutamente legítimas, diga-se, de um futuro melhor se, entretanto, não nos empenharmos pessoalmente na sua construção. E esse empenhamento tem que ser bem visível nas nossas atitudes, nos gestos de cidadania, a começar, desde logo, pela participação nos actos eleitorais. É que não podemos continuar a desvalorizar, com o nosso alheamento traduzido na abstenção, esses momentos tão relevantes para o nosso futuro comum, já que é através deles que escolhemos os concidadãos que terão a missão de pôr em prática os grandes planos, e a responsabilidade de gerir a coisa pública.
Os enormes desafios que se apresentam ao país devem compelir-nos a tentar promover a nossa capacidade de união, enquanto comunidade global, obviamente no estrito respeito pelos ideais de cada um, mas com a firme convicção de garantir o reforço do regime democrático. Só assim, assumindo, sem quaisquer margens para dúvidas, o enclausuramento de forças populistas, radicais e não democráticas, é que poderemos enfrentar os grandes reptos, superando as adversidades e construindo um futuro solidário e harmonioso.

Acredito ser essa uma das principais inquietações que hoje se colocam aos portugueses. E esta é uma preocupação candente, plena de oportunidade, na medida em que o mundo está a assistir a um crescimento ímpar de partidos e movimentos populistas, nacionalistas, ultraliberais e mesmo neofascistas. E, nessa matéria, as sondagens em Portugal também são pouco tranquilizadoras.
São muitos e diversificados os desafios que se colocam ao país. Entre outros, impõe-se fortalecer o Sistema Nacional de Saúde e investir seriamente na Educação, na Ciência e na Tecnologia. Simultaneamente, há que encontrar soluções que promovam o crescimento sustentável e a transição para uma economia verde, mas sem descurar o combate às desigualdades sociais. Enfim, para não ser exaustivo, apenas direi que os reptos são variados, com graus de dificuldade extraordinariamente elevados, e nada compagináveis com políticas extremistas.
Acontece que o ano que ontem se iniciou será aquele em que mais pessoas votarão, a nível mundial. Segundo o Centro para o Progresso Americano, um instituto de pesquisa dos Estados Unidos, mais de 2 biliões de pessoas vão às urnas em eleições gerais ou municipais nos próximos 12 meses. Claro que nem todos esses actos eleitorais serão realizados de forma livre e justa, o que não significa, mesmo assim, que deixem de causar forte impacto na política mundial dos próximos anos.

Deste ponto de vista, Portugal não foge à regra, sendo um dos países com várias consultas eleitorais já marcadas. A saber: eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em 4 de Fevereiro; eleição da Assembleia de Freguesia de Alvega e Concavada (Abrantes/Santarém), em 18 de Fevereiro; eleição da Assembleia da República, em 10 de Março; e eleição dos deputados ao Parlamento Europeu, em 9 de Junho.
Estas, as consultas eleitorais já oficialmente calendarizadas na Comissão Nacional de Eleições. Ressalve-se, contudo, que este calendário poderá não estar fechado uma vez que, eventualmente, poderá vir a ser necessário repetir algum acto eleitoral.

Também com o pensamento racional de considerar que a estabilidade política, não sendo em si mesma um fim, constitui um meio significativo, um instrumento determinante, para a implementação de algumas das grandes reformas de que o país carece, atrevo-me a afirmar que a participação consciente dos cidadãos se reveste da maior importância.
Torna-se, portanto, imperioso sensibilizar o eleitorado, tarefa que compete em primeiro lugar à classe política, desde logo através da alteração qualitativa do discurso. Os cidadãos estão saturados de discursos sem conteúdos informativos e programáticos, discursos que sobrevalorizam as acusações, por vezes roçando a ofensa pessoal. Este início do novo ano poderá ser, pois, a grande oportunidade para mudar a agulha, promovendo-se finalmente a reconciliação entre a classe política e os cidadãos.

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