Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Mudanças de paradigma

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2013-02-15 às 06h00

Margarida Proença

Nas últimas semanas, tenho-me lembrado recorrentemente de duas histórias - a intervenção de uma jovem empresária num programa Prós e Contras, e a história da 13º emenda à Constituição americana que o filme Lincoln nos conta de forma magistral. A intervenção de Obama no primeiro discurso que fez neste segundo mandato justifica também a esperança com que apesar de tudo devemos olhar o futuro.

No programa sobre a reforma do Estado, com a intervenção de uma série de oradores de relevo, uma jovem que estava no público interveio para chamar a atenção para a responsabilidade social das empresas, sublinhando que a ideia de que cabe exclusivamente ao Estado a função redistributiva corresponde a um paradigma em profunda mutação. As empresas, de forma geral as organizações, têm um papel fundamental a desempenhar, cada vez mais importante, e que constitui um desafio novo na criação de valor.

Michael Porter é um dos economistas mais famosos, com uma reputação quase de guru no pensamento da estratégia empresarial; qualquer jovem estudante universitário ou profissional que se interesse por estas questões analisa as forças de competitividade com base nos seus trabalhos. Pelo menos desde 2006 que Porter , entre outros claro, vem chamando a atenção para a importância da relação entre as vantagens competitivas das empresas e a sua responsabilidade social; mais recentemente considera que a assunção conjunta na responsabilidade de criação de valor é necessária absolutamente para “tratar” o capitalismo.

A responsabilidade social das empresas não é um conceito redutível a caridade. Corresponde a um elemento chave na estratégia da empresa, que pode acabar por se traduzir num acréscimo da reputação da mesma, com eventual melhoria nas vendas no mercado. Não é também um conceito novo, de forma alguma; em 2011, a União Europeia publicou a Estratégia Europeia de Responsabilidade Social para o triénio 2011-2014 onde se reconhece que a integração de preocupações ambientais e éticas, a partilha de boas práticas , a informação transparente , o apoio à educação e à inovação na estratégia organizacional contribuem para aumentar os níveis de confiança dos consumidores e para uma sociedade mais coesa.

A interface entre a abordagem estratégica e a abordagem altruística na condução dos negócios existe. Ou por outras palavras, entre uma orientação para o interesse dos proprietários ou dos acionistas, e uma orientação para o bem-estar social.

É complicado falar nestas questões quando se vive um ambiente de crise, quando as empresas são elas próprias confrontadas com problemas de tesouraria, com dificuldades no acesso ao crédito, com a sobrevivência muitas vezes. O ato de dar é curiosamente pro-cíclico : dá-se mais quando temos mais, e não menos, intuição que aliás tem vindo a ser confirmada por alguns trabalhos interessantes.

Ainda assim. O tempo é de mudança. Tal como refere Porter, provavelmente o tratamento do capitalismo passe também pela criação económica de valor, gerando lucro portanto, que ao mesmo tempo passe pela criação ou acréscimo de um benefício social. Não se trata apenas de dividir o bolo que temos, mas encontrar a forma de aumentar o bolo, torná-lo mais saboroso, adequá-lo melhor aos gostos de todos.

Como fazer isto? Não sei. Por exemplo, talvez que neste momento seja muito menos importante a investigação de base do que um esforço real de transmissão dos seus resultados de forma o mais imediata possível para a atividade económica. Talvez que as empresas do futuro, com claras vantagens competitivas, rentáveis, sejam aquelas que conseguirem criar valor económico desta forma, redesenhando os seus produtos, a sua localização, os seus fornecedores, como aliás Porter tambem argumenta. É claramente a mudança para um outro paradigma.

Em ambiente de graves crises económicas, historicamente, sempre se olhou para dentro, resolvendo cada um o problema dentro das suas fronteiras. Isto é, ao longo do tempo, a atração pelo protecionismo - contra o outro, o de fora, o que nos ameaça - foi sempre enorme. E parece fazer aliás todo o sentido, em tempo de crise , fechar fronteiras e impedir a livre circulação de produtos; é uma ideia que atrai. Mas na verdade, prova-se que de excessos protecionistas sempre se saiu a perder.

Por isso, o discurso do Presidente Obama é tão importante quando veio publicamente chamar a atenção e apoiar a criação de um acordo de comércio livre entre os Estados Unidos e a União Europeia : “Uma parceria transatlântica de comércio e investimento abrangente” .Este acordo comercial, que será o maior de sempre, permitirá a médio prazo que se entre numa nova era de crescimento económico. A médio prazo porque será necessário agora força para tornar real o acordo. Sinais de mudança que vão precisar de líderes fortes e com capacidade de mudar o futuro.

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