Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Morte anunciada

Pecado Original

Conta o Leitor

2015-08-19 às 06h00

Escritor

Manuel Correia

Quando a minha mãe morreu, eu sabia que ela ia morrer. Como qualquer um de nós, sabemos que, vamos morrer um dia! Apesar de a vida ser um estado de anestesia, com algumas brechas de lucidez, temos a virtude de não sabermos, quando vamos morrer?
O caso da minha mãe foi mais uma trágica vítima de cancro. Num dia está tudo bem. No outro dia vai tudo pela água abaixo. É nestas ocasiões que damos valor à vida. É nestes momentos que sentimos que não somos nada: zero. Foi o que aconteceu com a minha mãe. Um dia não tinha nada. No dia seguinte, tinha um cancro maligno, no intestino grosso. É caso para dizer, “mas que grande merda”.

Tinha apenas cinquenta e três anos, uma vida pela frente! Mas mesmo assim, e, sem piedade, o maldito cancro todos os dias a foi devorando. Todos os dias, como um relógio a descontar o tempo da sua vida. Nos últimos três meses de vida, o sofrimento era tal, que não dormia, e eu no quarto ao lado sofria em silêncio. Revoltado deixei de acreditar em Deus. Várias vezes me questionei: porquê? Uma mulher singular, uma mulher devota a Deus. Um Deus que a deixou abandonada: no sofrimento, na angústia.

Eu, perdido no mundo e angustiado, vivia num corpo de alma destroçada, não sabia o que estava certo? Para mim, tudo não passavam de mentiras, de farsas. Tudo estava errado. A vida era um erro, um jogo de xadrez, jogado pelos Deuses à distância. Tudo que tinha aprendido, ficou em causa. Não tinha sonhos, ou se os tinha desapareceram no túmulo. No meu túmulo. Depois de muito sofrimento, a morte: negra e fria. A morte: o mal, o bem! O mal pela perda, pela tristeza, pelo desaparecimento de um corpo de que tanto gostava. Uma perda irreversível. Uma ferida que ficou para toda a vida: no pensamento, na alma. O bem: o fim do sofrimento, neste mundo. Porque quem fica, e, como o mundo não pára, e só pára para quem morre, o sofrimento a alegria continuam até à morte.            

Como dizia no início, eu sabia que a minha mãe ia morrer devido ao cancro que a consumia. Os médicos depois de a operar deram-lhe dois anos e meio de vida. A princípio ainda fiquei com a esperança de eles se enganarem, ou quem sabe um milagre!
Foi então que, um ano antes: num teste de português do oitavo ano, de um curso nocturno e, como anexo do teste: uma composição de tema livre. A primeira ideia foi escrever sobre a minha mãe, ela era a luz que iluminava o meu caminho.

Enquanto escrevia todo o conteúdo, era como tivesse vivido um ano futuro, e voltasse para relatar a triste história, um ano antes. A história que sabia que ia acontecer. A história que gostava que fosse mentira. A verdade é só uma, a mentira pode ser uma infinidade de versões. Meticulosamente escrevi o dia em que, fiquei sem a luz maior, o dia em que as minhas lágrimas caíram sobre o soalho, em que o meu mundo desabou.

 No dia da entrega do teste e respectiva composição, o professor começou por entregar todos os testes e composições chamando pelo nome de cada aluno, e eu à espera da minha composição mesmo em frente ao professor. Quando o professor acabou por entregar todas excepto a minha composição eu fiquei a pensar o que se passava, estaria assim tão má? A composição de uma história verdadeira. A composição do meu sofrimento. Aquela que estava nas mãos do professor de português. As duas mãos do professor.

A composição nas suas mãos. Olhou para a plateia: eu, o meu colega de carteira e todos os outros colegas. Agarrando bem aquela pequena folha de papel A4. Disse: tenho aqui esta composição que, deixei de propósito para ser entregue no fim, para que todos a possam ouvir. Entretanto, pediu-me permissão para a poder ler. De imediato aceitei, e, confesso que fiquei admirado! O professor antes de a ler acrescentou que era uma composição: com princípio, meio e fim. Um exemplo para todos. Enquanto o professor lia a história: o dia da morte da minha mãe: Uma manhã como todas as manhãs; um galo a cantar; o silêncio da paisagem; uma terra perdida no horizonte; um grito que ecoou por fim!

Os meus sentimentos: um misto de orgulho e de tristeza. Enquanto o professor lia: o meu coração batia, batia, batia, e sempre a bater mais depressa. Finalmente, quando o professor acabou de ler a minha composição: o meu coração batia, batia, até que deixei de o ouvir bater. Continuava a bater, mas agora só com uma emoção: a tristeza. A tristeza de saber que aquela era uma história verdadeira. No fim de ler a minha composição, o meu professor de português, deu-me a composição para as minhas mãos, e voltou a elogiar-me pelo magnífico trabalho de nota máxima. Pelo trabalho do qual nunca soube que viria a ser uma história verdadeira.

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