Correio do Minho

Braga, terça-feira

'Morreu o Marcolino!', por João Castelo Branco

O que nos distingue

Conta o Leitor

2012-07-19 às 06h00

Escritor

A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade e deixou estupefactos os habitantes das imediações da rua Alberto Ferraz.
- O quê, qual Marcolino? Aquele que aqui há uns anos estava sempre à porta do cinema a pedir uma moedinha?- perguntou a Deolinda da retrosaria.
Correu pelo Facebook, mobilizou jornalistas, motivou mesmo alguma investigação, deu origem a artigos no matutino .

Primeiro um olhar incrédulo perante a notícia e depois, estranhamente, aos poucos as pessoas foram -se inteirando de que o sem abrigo que entrara na rotina das suas vidas se tinha apagado assim de um dia para o outro.
- Diz que foram os homens do lixo que pela madrugada fora deram com ele imóvel e sem respirar! - dizia o Fontes do café Nova YorK.
- Oh pá aquele gajo que andava com outro tipo que o mandava pedir ?
- Sim, esse tipo, era o Francisquinho do bairro das Arcádias ,os gaijos volta e meia discutiam e zangavam-se mas acabavam sempre por aí os dois.
- Oh mas esse já morreu antes . Diz que a vida pelas ruas e a mendicidade só começou depois da morte da mãe dele e que o tipo só caiu nessa vida por desgosto e solidão.

“ Quanto ao Marcolino parece que os pais dele tinham um casebre na praia das Ameias e que o tipo depois de anos e anos de vagabundagem, há pouco tempo, lá acabou por regressar mais a Armanda que era quem o acompanhava depois da morte do Francisquinho . Mas, parece que a coisa não resultou , pois os pais dele não se entenderam com eles e ao fim de alguns meses acabaram por regressar à cidade e retomar a vida errante.”

Aos poucos, os habitantes da cidade foram-se dando conta de que aquelas figuras grotescas que habitavam a cidade e com quem anos a fio se habituaram a conviver eram mais importantes nas suas vidas do que podiam imaginar.
Correram a inteirar-se na redação do jornal se o Aurélio jornalista não lhes podia ceder mais informações sobre o Marcolino, depois começaram a recordar um tal Pascoais que há uns anos também se tinha ficado e de um Rolando que desaparecera misteriosamente.

O jornalista observou toda aquela onda de interesse pelo sucedido, e deixou-se embalar por uma inusitada motivação e esmerou-se na escrita. Naquela noite sentiu que amava a cidade, as pessoas: o seu passo apressado pela manhã, o ar cansado do regresso, o esbranquiçar dos cabelos que se agudizava com o passar dos anos , as suas expressões de felicidade e de angústia, as crianças que se tornaram adolescentes , os velhos que se sentavam perto da estação e que preenchiam o tempo com joguinhos e falando da vida dos filhos e netos.

Também ele se sentia tocado pela morte do Marcolino e percebia que a cidade se ressentia. - Caramba ,aquele homem pertencia à cidade, representava-nos a todos um pouco nos defeitos e nas virtudes .

Aos poucos, o artigo foi-lhe saindo e reparou que por aquela página iam desfilando um significativo número de figuras bizarras que tinha conhecido ao longo da sua já comprida vida.
Era como se aquelas personagens fossem caricaturas de si mesmo. E, ao mesmo tempo tudo aquilo em que não nos gostaríamos de tornar. Palhaços pobres de uma comédia real de vida a que o infortúnio da doença e da desestruturação familiar tinha tocado à porta.

Marcolino, despido de preconceitos e trajando de forma andrajosa amava sobretudo a vida.
A vida como ele a entendia ser vivida, dormitando por onde calha, amante de sensações efusivas imediatas que alguma música lhe proporcionava, apreciador da comida que devorava quando sentia fome e lhe ofereciam quando calhava.

Pouco se importando com o que lhe diziam, esmerava-se na arte da pedinchice . Movido por qualquer artimanha que resultara, chamava doutor a todos, conseguindo por vezes atrair uma moedinha e até um sorriso complacente, um encolher de ombros um abanar de cabeça de uma idosa…

- Eh pá estava a ver que te esquecias de mim! - pega, vai lá à tua vida, anda…
- Olha quem é ele? - Ó pá que é feito do teu amigo?
- Ai não dá hoje não, pois se fosse para comer até dava não é?! Mas para o cinema não quer dar não é?! - desconcertante anulava quaisquer juízos de valor, pois o justo, parecia ali ser embalado pela simplicidade do raciocínio, pela verdade da intenção e por uma enorme vontade de viver mais uma façanha: o filme vai começar ,mil e uma aventuras eu vou viver-olhem como sou feliz!

Quando o calor se abatia sobre a cidade e os habitantes abalavam de calções toalha e bronzeador, a dupla Marcolino e Francisquinho acompanhava a onda. Não lhes faltava comida e até abrigo se assim calhasse .

Por ocasião das festas da cidade acabavam entrando nos eventos pagos e avidamente bebiam o fogo de artifício multicolor , esmeravam-se na arte de contar as façanhas do poço da morte e disputavam entre si pormenores que um achava ter mal contado o outro.

- Pedaços de passado, farrapos de memória que acompanhavam a sua escrita que ele procurava que fosse um veículo do sentir comum. Particularmente nesta peça sentia uma exacerbada tendência para analisar o sentir da população, a expiar-se das suas” culpas” pela morte do Marcolino, talvez por não desejarem ser sem abrigo ou temerem que os seus, nessa vida pudessem cair.

Acometido pela mesmo sentir dos seus concidadãos resolveu acabar o artigo de forma simples e clara: “… não se percebia por detrás daquela fraca figura de homem, laivos de violência ou agressividade. A memória devolve-me a imagem de uma criança grande. - Que descanse em paz um eterno sono aconchegante “.

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