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Morrer lentamente

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Ideias

2015-03-01 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os valores que orientam a sociedade em que vivemos estão marcados, na sua esmagadora maioria, pela vertente económica e financeira. A preocupação máxima dos Estados tem sido a sua sustentabilidade económica, descurando dessa forma os valores mínimos da sobrevivência humana.

Quem não ouve falar, diariamente, nas longas horas de espera que os doentes passam na urgência dos hospitais? Quem não ouve falar, diariamente, no elevado número de alunos que consome apenas uma refeição por dia? Quem não ouve falar, diariamente, na diminuição das ajudas aos desempregados, aos mais desfavorecidos, aos mais desprotegidos? Quem não ouve falar, diariamente, no encerramento de empresas, no aumento dos desempregados, na diminuição de poder de compra, no aumento do número de portugueses a receber o salário mínimo? Não é necessário andar muito atento para nos depararmos, à nossa volta, com casos desta natureza.

Não querendo alongar-me muito nesta análise, gostaria apenas de aqui retratar o exemplo de José Neto e que acabou de uma forma dramática.

O episódio a que me quero referir ocorreu em Vale Todos, no concelho de Ancião, em meados do mês de Março de 1907, e envolveu um indivíduo de escassos recursos económicos e elevado perfil de humildade: José Neto.
Em 1879, José Neto foi condenado a 28 anos de prisão, por um crime que, segundo o próprio, nem sequer cometeu. A pena atribuída a José Neto foi o degredo em África, pelo período de 28 anos.

Preocupado com o que lhe estava a acontecer e aterrorizado com o que o esperava em África, José Neto viu agravada a sua inquietação pelo facto de saber que, no momento em que conhecia a pena, tinha nascido o seu filho, poucos dias antes. O réu mal teve tempo de conhecer o recém-nascido, ao qual foi atribuído o nome de Manuel, quando foi obrigado a embarcar imediatamente para África.

Durante os 28 anos em que permaneceu em Luanda, José Neto manteve duas angústias permanentes: por um lado, mantinha o sentimento de total inocência relativa ao crime que lhe imputavam e, por outro, estava longe de casa e longe da sua família, nomeadamente do seu filho, pois a saudade perseguia-o e atormentava-o permanentemente.

Toda esta angústia envolveu diariamente José Neto, pois o próprio referiu que durante os 28 anos de degredo em África não houve um dia em que não se lembrasse do seu filho, tal era a amargura que sentia pela situação que o apoquentava. A sua obsessão era de tal ordem que, quando se preparava para embarcar para Portugal, teve a perceção de que tinha avistado em Luanda o seu filho, sem no entanto o conseguir confirmar.

Regressado a Portugal, a grande obsessão que o envolveu foi tentar saber o paradeiro do seu descendente, sendo de imediato informado de que o pequeno Manuel havia viajado há alguns anos para o Brasil, onde tinha conseguido arranjar um emprego. Esta informação transtornou ainda mais José Neto, pois ao sentimento de abandono que sentiu durante os 28 anos de degredo em Angola, era atingido agora por esse sentimento de distância, quase intransponível, pois o seu filho estava no Brasil!

Durante algum tempo, José Neto deambulou por Vale Todos, sem ocupação, sem rendimentos e sem habitação. Sobrevivia apenas com as esmolas que recebia da população local, que o ajudava no pouco que podia, tal era a miséria que atingia os portugueses da época.
Quando já não tinha qualquer esperança em receber notícias do seu filho, José Neto acabou por receber uma carta do Brasil, escrita pelo seu filho, que o informava de que estava vivo e que lhe passaria a enviar mensalmente uma quantia em dinheiro, para que este pudesse sobreviver com mais dignidade.

A meio de Março de 1907 José Neto foi informado para se deslocar a um posto de Correios para que lhe fosse entregue a primeira “mesada” enviada pelo seu descendente. Nesse momento, José Neto foi atingido pela emoção, proferido as seguintes palavras: “Ora, até que enfim! Depois de tantos anos de sofrimento apareceu - me um filho a dar-me alívio nos últimos dias da minha vida!”. Emocionado, começou a chorar de forma compulsiva, soluçando o nome do seu filho, pela obra de caridade que acabava de lhe fazer. Logo depois, acabou por cair no chão, morrendo de seguida!

A alegria e a emoção de José Neto, provocada pela obra de caridade do seu filho, foram fatais, pois morreu sem sequer chegar a utilizar o dinheiro enviado pelo seu filho.
O episódio que aqui foi relatado, revela-nos o quão importante é a solidariedade e a palavra de conforto em momentos difíceis da vida. No caso de José Neto, acabou por falecer de alegria pelo gesto praticado pelo seu filho. Na atualidade, não faltam pessoas que sofrem, que passam dificuldades, que sobrevivem no limiar das forças, tudo, ou quase tudo, provocado pela crise económica que nos consome. E, ainda em vida, vão morrendo, morrendo lentamente!

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