Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Morre-se de solidão no meu país

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2012-01-29 às 06h00

Carlos Pires

'Janeiro e Fevereiro levam e o velho e o cordeiro', diz o adágio popular, como que a reconhecer que aqueles meses são os mais ameaçadores para a vida dos idosos, por um lado, e que o processo do envelhecimento e morte é inevitável e inerente a todos, por outro lado. Envelhecer é um processo tão natural quanto nascer e crescer. Ninguém fica de fora deste circuito.

As mortes de idosos veiculadas esta semana pelos noticiários apresentam características que violam aquela ordem natural da existência humana - velhos que permaneceram mortos nas suas residências, durante dias e até meses, até serem encontrados.

O caso mais chocante correspondeu ao da morte de duas irmãs octagenárias encontradas na sua casa, em Lisboa, “em adiantado estado de decomposição”. Uma delas estava acamada e era a sua irmã, portadora de doença cancerígena, quem de ambas tomava conta. Esta última acabou por morrer devido à doença prolongada, deixando a irmã sem qualquer assistência, acabando por falecer também, privada de comida e de água.

Triste. Dramático. Cruel. O caso despertou em mim mais atenção do que os “fait-divers” em torno das declarações do Presidente da República acerca da alegada situação de “penúria” em que se encontra, ou mesmo a propósito da “espectacular” vida que aparentemente o ex-Primeiro Ministro, José Sócrates, tem em Paris, onde fixou residência. Em boa verdade, e a título de parêntesis, uma sociedade que permite que duas idosas vivam abandonadas à sua sorte nestas condições é uma sociedade que merece os políticos que tem.

É lamentável e terrível a solidão dos nossos velhos. Solidão, abandono, sofrimento total. Imagino o desespero daquelas duas senhoras; o terror e a aflição da irmã acamada, incapaz de avisar alguém que a fosse ajudar, ao aperceber-se da morte da irmã. Absolutamente inacreditável e terrífico.

A sociedade está de facto doente, cada vez mais doente. Todos nós, há já algum tempo, vamos tomando conhecimento de casos de abandono de idosos em hospitais, de idosos com “alta médica” a viverem nos corredores, onde ninguém os vai resgatar, sejam eles os familiares, o Estado ou amigos. Portugal parece que acordou ora para uma nova realidade dos idosos, os que morrem na mais profunda e triste solidão.

E parece que não há responsáveis, parece que nada há a fazer para contrariar esta dantesca realidade, o país emudeceu. As senhoras não eram acompanhadas por médico(s), de nenhum centro de saúde? Os profissionais de saúde não sabiam da situação em que viviam as duas irmãs? Foi dado o devido acompanhamento? Ouvi a senhora presidente de Junta de Freguesia a referir que as senhoras em causa nunca tinham solicitado ajuda...

Pergunto, é preciso esperar que nos peçam para ajudar quanto tudo é tão claro e evidente? A responsabilidade parece ter cariz 'administrativo', isto é, não pediram ajuda, ninguém deu… Revoltante! Há aqui obviamente campo de trabalho para as Juntas de Freguesia, que devem fazer um inventário das pessoas que vivem sozinhas, sobretudo as idosas, e depois acompanhá-las. Os lares serão solução para quem quiser. Há pessoas que não querem abandonar a sua casa e isso deve ser respeitado, pelo menos na medida do possível.

Não é o Estado - Governo, Juntas de Freguesia, hospitais, centros de saúde, etc - o responsável pela solidão. A este nível coloco as culpas, em primeira linha, aos familiares. O conceito de “família” enquanto unidade de protecção revela-se descaracterizado, reduzido a um núcleo ínfimo, quantitativo e qualitativo. Numa segunda linha, culpo a total indiferença que pauta as actuais relações de vizinhança.

Ninguém quer saber do que se passa “do outro lado da parede”, sequer a níveis mínimos, fruto do egoísmo, da pressa colectiva, da intolerância e do desprezo pelo fim da vida. Mas se o Estado não é responsável pela solidão, diferente conclusão retira-se do papel que lhe cabe no acompanhamento dos casos de risco registados.

Para que serve, por exemplo, o recente recenseamento realizado de toda a população quando, afinal, a informação recolhida não é objecto do devido tratamento? Nunca dispusemos de tantos meios de “ligação” como hoje. Paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes como hoje daquilo que verdadeiramente nos une (v.g. os afectos, a solidariedade, a entre ajuda)…

Os casos noticiados apelam à urgência de uma intervenção face ao processo de envelhecimento demográfico português. Afinal este é um país que maltrata os seus velhos, um país em que os velhos morrem de solidão. Abandonados pelos filhos, negligenciados, desamparados e esquecidos nas suas casas, tornadas “cemitérios” de passagem. Encontrados por acaso, quando a vizinha se apercebe da caixa de correio cheia. Morrem de morte súbita, mas com anos de sofrimento.

Permanecem vivos no registo civil, quando já morreram há muito para a sociedade. E todos fingimos não ver. Como o filme, este não é um país para velhos. Para mal de todos nós.

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