Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Momentos...

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2012-09-08 às 06h00

Escritor

Raquel Costa


A sua presença mexia com ela. Não era o físico, não era o olhar, nem tão pouco a fala. Era o seu cheiro. Nenhum dos dois ousava permitir-se sequer a avançar para uma situação de mais atrevimento.. Um dia, ele ousou abraçá-la, o toque, a duração, o silêncio, um longo momento, nada mais. Ela permaneceu imóvel, quieta, sem palavras, sem debater-se. Para ela foi muito significativo.

O impulso que a levava a suscitar a mesma reacção da parte dele foi forte demais para poder resistir-lhe. Os músculos contraíram-se. Era impossível que fosse inexperiente nos jogos de sedução. Mas foi apenas o momento do longo abraço, do contacto físico, ainda que ao de leve, quietos.

A cada dia foi crescendo nela o desejo de mais outro abraço e quem sabe, de um beijo. Parecia-lhe impossível de acontecer. Inadmissível até! Não podia haver relacionamento. Não devia! Por isso, só o pensamento era livre de sonhar. Pode-se ambicionar e nunca se concretizar. Nunca se realizar. Mas o pensamento perdurava, e também esses mesmos pensamentos eram considerados momentos. E ele que pensaria? Que desejaria? E que importaria isso, se eram adultos amadurecidos e vividos o suficiente, e livres. Eram reservados numa mistura de uma timidez inexistente. Ele ocupava-lhe a mente.

O desejo era crescente, umas vezes mais, outras menos, mas nunca desaparecendo, a empatia tomou conta a cada dia que passava. Volvidos semanas, que mais pareciam uma eternidade, numa amena conversa, entre eles qual hesitação sem medidas, por ninguém querer tomar a iniciativa, pois existia respeito, reserva, receio, de uma coisa que o querer já não controlava, ali tão perto um do outro…

.... E quando ela pressentiu que algo estaria prestes a acontecer, não hesitou em, num gesto de avançar, deixar-se levar por todo o desejo de manifestar o carinho que a envolvia. Assim, num ápice, qual abelha que suga o nectar da sua flor, estavam envoltos num longo beijo. Ora, com cuidado, lentidão, ora com frenesim, a emoção encheu-lhe por completo, plena e transparente, o desejo que a carne não consegue reprimir. Foi silêncio, só com a respiração e os gestos, que valem mil palavras....Afastar e voltar, sem palavras, sem nada.

Era o que ela queria, mas não devia! Pôs-se em bicos de pés para chegar à curvatura do pescoço dele, por entre a gola alta da camisola, suavemente ele deslizou a mão que tinha no pescoço dela, fazendo-a delinear até à linha firme do maxilar, a pele agora mais macia. Os olhos dela escureceram e a respiração passou a ser arquejante, fazendo com que toda a pele dela fosse percorrida por um formigueiro de antecipação. Tinha esperado que ele a beijasse durante tanto tempo, á espera das sensações que ele tinha conseguido estimular nela. Subitamente, ele apoderou-se da boca dela com a força de quem não consegue saciar-se. Deixou-se levar , premiu o corpo mais contra o dele, esperando que se sentisse tão excitado quanto ela própria.

As mãos dele deslizaram pelas costas dela. O raciocínio conseguiu penetrar a névoa que lhe envolvia a mente quando o sentiu a latejar. Aquela proximidade física não era suficiente, debatia-se junto a ele, contra os lábios a apoderar-se dos seus. Queria e não queria.

O seu corpo contraiu-se, mas foi incapaz de relaxar os músculos. Os nervos tinham-se apoderado de si, arrefecendo o ardor que quase a dominara inteiramente. O medo momentâneo que sentira não havia passado disso. Momentâneo. Um misto de alívio e confiança. A combinação era poderosa e estranha. Os dedos dele apertaram-se mais, por breves momentos… nos braços, nas ancas, antes de se soltarem. Ele retrocedeu, arrepiara caminho, simplesmente, por se ter apercebido do desconforto dela. Ela estava com uma tensão nervosa sem precedentes.
E quando decididamente este beijo terminou, apoderou-se dela um sentimento de culpa, de vergonha até!

Dias após, a culpa desvaneceu-se e aumentou o desejo, a vontade de repetir, não se havia enganado, temeu a desilusão, mas agora a confirmação de que o resultado da sua ânsia havia sido tal e qual como a idealizara. Um grande momento…O momento de verdade, de realidade e não de sonho.

E vieram mais momentos, espaçadamente, mas aconteceram. Primeiro com pequenos e furtivos beijos, pequenas carícias, com os dedos ela percorrera a coluna forte do pescoço dele e sentira o empolgamento do orgulho quando ele estremeceu. Ela tinha poder para fazer com que aquele homem poderoso estremecesse. Aquilo foi o momento da descoberta. Passou os dedos pelos cabelos curtos da nunca, e beijou-o com toda a confiança, recentemente encontrada. Ele assumiu o controlo do beijo, cobrindo a boca dela com os seus lábios e um seio com a mão. Ela cerrou as pálpebras e sentiu que as pernas desfaleciam. A emoção era plena, transparente e manifestou-se nela nos olhos, que então, ficaram marejados de lágrimas…

A extremidade da ereção dele roçou precisamente na região do corpo dela que ansiava por ele. Mas, ela receava, não se encontrava liberta de todo, do seu à vontade. Tudo lhe parecia impossível de acontecer. E embora o desejasse, ao mesmo tempo temia. A roupa separava-os. O medo separava-os. O local separava-os... As mãos dele encontraram por baixo da camisola dela a macieza dos seios, para de seguida baixar a boca até um mamilo num único movimento cheio de ardor. Toda ela era prazer ainda que só nos beijos, impaciente, puxou-o para si, até ele ter mudado para outro mamilo, fazendo um som sussurrante de aprovação.

O pensamento dela, ato contínuo, centrou-se em não deixar ir mais além. Ele baixou a cabeça até à parte inferior de um dos seios, arrancando-lhe um suspiro profundo. Ele não a poupou de caricias, beijando um seio e depois outro, excitando-a, mordendo ao de leve, mas nunca a magoar. Sempre a proporcionar-lhe prazer. Prazer que ela sentira num beijo…

Tudo momentos, pequenos, grandes, ínfimos, todos estes pequenos momentos, fazem parte de um grande momento. A vida é feita disso mesmo, de momentos. Simplesmente … momentos…. Depois dentro de cada um, dentro de si, caberá avaliar se o momento foi insignificante, se durará só por aquele momento, ou se pelo contrário perdurará no tempo que o mesmo terá na sua avaliação, quiçá, para todo o sempre.

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