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Momentos que marcam

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Momentos que marcam

Ideias

2022-09-27 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Seja-me permitido, neste espaço, fazer eco de dois momentos que me tocam profundamente, embora de sinal contrário Por um lado, a justa homenagem recentemente prestada ao sacerdote, jornalista e poeta Domingos Silva Araújo, no âmbito do ciclo de conferências “Conhecer Braga: suas instituições, seus ilustres bracarenses e seu património”, que a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva tem vindo a promover; por outro, o falecimento do Professor Vítor Aguiar e Silva.
Em relação à homenagem a Silva Araújo, foi com satisfação que vi os oradores – Tiago Freitas, Damião Pereira e Eduardo Jorge Madureira – a reconhecer unanimemente a marca indestrutível que o homenageado deixou nos locais por onde tem passado, seja em missão pastoral, seja em serviço profissional.
No seu conjunto, pode afirmar-se que assistimos a intervenções exímias, que traçaram um perfil bastante completo do homenageado, embora, e dada a sua intensa e diversificada actividade ao longo de tantos anos, muito terá ficado por dizer.
Poderia evocar aqui diversos acontecimentos que testemunhei bem de perto, em particular alguns demonstrativos da sua faceta solidária para com os seus camaradas jornalistas, em particular quando alguns deles se recusaram a ceder às pressões políticas do então governador civil, entrando em rota de colisão com esse representante do governo. Foi uma postura de grande coragem, que demonstra o seu carácter de homem íntegro, homem de valores.
No entanto, e por razões óbvias, apenas quero destacar a dimensão de Silva Araújo enquanto jornalista, aquela que melhor conheço, quer do ponto de vista de oficial do mesmo ofício e, nessa medida, seu colega, quer do ponto de vista de seu leitor, que continuo a ser.
Esse conhecimento pessoal permite-me concluir, sem qualquer hesitação, que o rigor e a verdade são os dois traços mais marcantes e identitários da personalidade e da escrita de Silva Araújo. A esse propósito, Eduardo Jorge Madureira lembrou que os textos que o então director do Diário Minho elaborava, enquanto repórter que “cobria” as reuniões da Câmara de Braga, eram tão completos e fiáveis que frequentemente serviam de base à argumentação dos partidos. Corroboro essa tese.
Na realidade, sou testemunha de que, não poucas vezes, as narrativas de Silva Araújo eram bastante mais minuciosas do que as próprias actas oficiais da Câmara, e eram-no porque a preocupação de rigor do seu autor não lhe permitia omitir quaisquer pormenores, mesmo aqueles que outros consideravam desinteressantes ou descartáveis.
Mas o depoimento que melhor sintetiza o seu trabalho é do próprio Silva Araújo: “tive o cuidado de informar com verdade” e “se alguma vez não o fiz é porque fui enganado”.
É este jornalista, acérrimo seguidor do princípio de que os “factos são sagrados e os comentários são livres”, paradigma que carece de mais seguidores, e que defende “um são pluralismo de harmonia com a doutrina da Igreja”, que merece o reconhecimento e a gratidão da cidade que ele adoptou como sua. Pena que entre os muitos amigos, admiradores e autoridades eclesiásticas, não se tivesse vislumbrado a presença de qualquer representante do executivo municipal.


O falecimento de Vítor Aguiar e Silva, nome maior da universidade portuguesa, ocorreu uns dias antes, e correspondeu a um momento de grande tristeza para as letras e a cultura lusófona.
Nome central dos estudos camonianos, sem, contudo, descurar outros interesses, quer de clássicos, como Eça, quer de contemporâneos, como Manuel Alegre, Aguiar e Silva deixou-nos uma obra diversificada e marcante, em particular no campo dos estudos literários. Faz todo o sentido recordar, a propósito, a sua Teoria da Literatura, editada em 1967, e sucessivamente reeditada em anos seguintes.
Muito justamente galardoado com os maiores prémios literários, o professor Aguiar e Silva, que também liderou a Comissão Nacional de Língua Portuguesa, esteve na origem da fundação do Instituto Camões. Contudo, o maior reconhecimento surgiu em 2020, quando foi distinguido com o Camões, prémio literário instituído pelos Governos de Portugal e do Brasil, em 1988, com vista a estreitar os laços culturais entre os vários países lusófonos e enriquecer o património literário e cultural da Língua Portuguesa.
Como escreveu, a propósito, o meu amigo Eng. José Teixeira, criador do Prémio de Literatura DST, de que Aguiar e Silva era presidente, quando, em 2020, o júri do Prémio Camões distinguiu Vítor Manuel Aguiar e Silva, estava a reconhecer, como já fizera noutras ocasiões, a importância que o ensaio, a crítica, a teoria e os estudos literários têm numa cultura, neste caso a portuguesa e a de língua portuguesa.
Tive a grata honra de com ele conviver, em particular em várias edições da Feira do Livro de Braga, mas também em outras actividades culturais em que Aguiar e Silva participava regularmente. E retenho na memória o seu trato, o seu imenso saber, e a forma simples como o transmitia. Estar-lhe-ei sempre imensamente grato por tudo isso. Também por ter sido, como eu, um feroz opositor do novo acordo ortográfico. Por tudo isto, que não é pouco, o meu reconhecimento ao professor Vítor Aguiar e Silva!

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