Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Momentos de reflexão

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2010-10-09 às 06h00

Paulo Monteiro

De uma maneira geral, os portugueses gastam mais do que aquilo que recebem. Desde as pequenas famílias, com menos recursos, ao Estado que, de uma maneira ou de outra, não sabe, não lhe apetece, ou não quer governar bem…

Nas pequenas famílias, ou na classe (dita ainda) média, o endividamento está pelas horas da morte. O crédito mal parado encontra-se pelas ruas da amargura. Os empréstimos fáceis de alcançar levaram já milhares e milhares de famílias a pedirem ajuda. Todos os dias entram pedidos de apoio na Deco. Pedem-se conselhos. Daqui a pouco há cada vez mais famílias a abrirem falência para escapar às dívidas e a inundar os tribunais.

Nos sucessivos governos, as ‘brincadeiras’ do costume (e brincadeiras que não têm graça nenhuma pois de assuntos muito sérios se tratam) continuam… Por exemplo, o actual governo ainda há bem pouco tempo (2008) tinha discursos optimistas: “estamos a sair da crise, ou “a crise já está a passar”, ou então mais alegres, “a crise já passou mesmo”. O certo é que com pompa e circunstância lá se fizeram discursos de quase vitória… discursos que levaram a baixar o IVA (de 21 para 20%), discursos que levaram a aumentos na Função Pública de 3%... O povo arregalou os olhos, esfregou as mãos de contente… Pouco tempo depois tivemos eleições!

E, quase num ápice, começaram as histórias do PEC… veio o primeiro, a seguir o segundo e agora o terceiro… arrasador para aquele que trabalha por conta de outrem. É este o mesmo ‘cristo’ de sempre, o mesmo que tem de pagar as favas, que tem de apertar o cinto, mesmo que já esteja roto de tantos e tantos furos feitos em outros tantos e tantos anos…

A questão é bem clara: não há, e se calhar nunca houve, uma gestão cuidada dos nossos dinheiros. Sim, dos dinheiros dos nossos impostos que são usados pelo Estado para pagar as despesas públicas primárias que são quase 90% dessas receitas e o pouco que resta serve para investimento…

É num país assim que vivemos…. Será bom? Será mau? Se calhar nunca o saberemos…
O que vamos constatando é que o povo é sereno, continua tranquilo, expectante, à espera de dias melhores. Em tempos idos existiam revoluções na rua. Hoje, quase ninguém fala. Ficamos um pouco boquiabertos quando se acabam com os sub-sistemas de saúde e ninguém protesta. Já aconteceu no passado. Acontece no presente. Qual a voz dos trabalhadores da PT? Quais as reacções dos bancários que à hora em que escrevo esta crónica se sentaram à mesa para discutir a passagem para integrar o regime geral da Segurança Social?

Aqui deixem-me dizer que é dinheiro fácil para entrar nos cofres do Estado… a mesma política de sempre, desde Manuela Ferreira Leite ao actual ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.
Mas a factura vai-se pagar mais tarde… e estaremos cá para ver, tanto mais que a maioria dos sub-sistemas de saúde eram sólidos e davam lucros…

Mas passemos à frente…
A história dos direitos adquiridos, neste país, já não existe. Hoje em dia até se cortam nos vencimentos. Até se dão ao luxo de ainda nada estar aprovado e já virem as finanças com tabelas lindas das reduções dos ordenados a partir dos 1550 euros. Em média, os trabalhadores da Função Pública que ganhem mais de 1550 euros por mês vão sofrer um corte mensal médio no seu ordenado de 215 euros...

As decisões tomadas no PEC III foram brutais. Não é que não concorde, em parte, com muitas delas, mas também discordo, em muito, com muitas coisas que continuam a não ser feitas…
Sou leigo na matéria mas há decisões políticas neste país que têm de ser tomadas.
Exemplos? Há muitos… É preciso reduzir a despesa pública? Pois bem reduza-se. Onde? Em tantos sítios… demora tempo? Algum, mas lá chegaremos.

Primeiro, os exemplo terão de vir de cima. Já estamos fartos de ler e ver notícias de vencimentos exorbitantes praticados neste país. Ainda esta semana vemos isso nas manchetes das revistas e dos jornais. Vemos os ‘jobs’. Esta semana lê-mos os vencimentos e os cargos de ex-ministros, de ex-secretários, ou de ex-assessores. Mas ontem passava-se o mesmo com as outras cores políticas, basta recuar no tempo e ver as mesmas manchetes coloridas de outros tons… Será justo?

Por isso o exemplo terá de vir de cima… Já os ingleses, os que andam lá em cima, dão exemplos… deixam os carros, os motoristas, passam a andar nos transportes públicos.
Mas há mais…

Sempre se falou no excesso de funcionários públicos. É verdade. É igualmente verdade que já se tentou colocar um travão nas contratações. É verdade que dantes o primo, o amigo, o enteado, o sobrinho, o amigo do tio e a ‘cunha’ do avô tinham sempre sucesso. Mas pergunto: vamos conseguir aguentar isto? Este peso brutal na função pública?

Sabemos que há serviços deficitários mas há outros em que onde havia lugar para 10, se calhar estão 200…. O que fazemos? Tomar medidas impopulares? Se calhar é solução, mas se calhar quando essa for mesmo a última solução…

E em muitos lados já vemos países em que se chegou a esta última solução. Na Rússia, Mos-covo vai suprimir mais de 100 mil cargos públicos em três anos e, em Cuba, são os próprios sindicalistas que estão a explicar os despedimentos de meio milhão de trabalhadores estatais…

Por cá, temos de fazer alguma coisa…O quê? Extinguir e fundir organismos da Administração Pública directa e indirecta; reorganizar e racionalizar o sector empresarial do Estado reduzindo o número de entidades e o número de cargos dirigentes, como o Governo anunciou? E só isso chega?

E porque não pensar - ou agir, porque pensar já se pensa há muito - com a extinção dos Governos Civis, com a redução do número de juntas de freguesias, com o fecho da maioria das entidades ligadas às autarquias que nasceram como cogumelos e que dão pelo nome de empresas municipais? Há tanta coisa a mais...

Vejamos é o que ainda mais nos irão anunciar. Não me admiraria nada de mais um PEC, neste caso o quarto, e já para o próximo ano.
Mas continuam-se a cometer erros de palmatória e muitos. Em tempo de crise é preciso ir gastar mil e quinhentos milhões de euros com as Forças Arma-das quando se pendem tantos sacrifícios?
Não podemos ser o patinho feio desta Europa que quer ser unida… Temos que olhar para os bons exemplos dos outros e seguir-lhes os passos.

Nós somos tão bons, mas tão bons, quando queremos ser, porque é que não o somos a partir de agora e de uma vez por todas?
Para ter sucesso temos que remar todos para o mesmo lado. Com o mesmo trabalho e com as mesmas responsabilidades…

É desmotivante para aqueles que trabalham arduamente todos os dias ver os outros, mesmo ali ao lado, a olhar para o seu umbigo e unicamente para os seus interesses.
É tempo de dizer basta a muita coisa e de fazer uma profunda reflexão. Por isso é que hoje escrevo estes momentos de reflexão… Algumas ideias, alguns desabafos, algumas frases que ouvimos no dia a dia do povo anónimo.

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