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Moçambique, Cabo Delgado, Cabo Amaldiçoado

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Moçambique, Cabo Delgado, Cabo Amaldiçoado

Voz aos Escritores

2021-04-07 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Ocampo de refugiados estende-se por um mar de tendas toscas, paus e panos quietos, intactos pelos ventos refrescantes que debandaram para outras paragens. Os ventos que aqui sopram são os da miséria, da violência e da morte. O calor é tórrido, fere-nos os corpos, corpos escorridos de rios suados, corpos ausentes de lágrimas. As nossas lágrimas são secas como a terra escaldante que pisamos. Choramos por dentro. Como a terra, os nossos corpos têm fendas profundas, feridas que apesar de secas não cicatrizam. Temos medo. Temos sede. Temos fome. Os seios das Mães são figos caídos e murchos, ocos de leite e de mel. As crianças de colo, vestidas de moscas, prenhes de fome, sugam-nos com sofreguidão, esbugalham os olhos, chupam-nos em vão, olham o vazio, o ondular esbatido do calor, rendem-se à inanição. Na maior as dores as Mães embalam os filhos mortos. Filhos tragados pela terra seca. Também eu queria ter embalado o meu filho decapitado, enterrá-lo com estas mãos que o puseram no Mundo, esconder o seu corpo ensanguentado das bocarras dos animais que se alimentam dos cadáveres, meninos assassinados pela malvadez, pela ganância, pela avidez dos grupos extremistas. Naquela noite mataram o meu filho, incendiaram a aldeia e as colheitas, alastraram o horror, atearam fogo a uma carrinha. Os gritos das vinte e oito almas nela trancadas, pelas labaredas assassinas tragadas, perseguiam a nossa fuga para a floresta. Fui arrastada pelo meu Pai, eu não queria deixar o meu filho no inferno, berrei, esbracejei, o meu Pai gritou-me que eu tinha de salvar os meus outros três filhos. Deixei para trás o meu menino decapitado, dezenas de meninos decepados. Tinha doze anos, era o meu filho mais velho, e como os outros meninos degolados recusou-se a fazer parte dos grupos extremistas que raptam rapazes para os integrarem na sua guerrilha e raparigas para serem suas servas de trabalho e escravas sexuais. Na fuga, passámos cinco dias a comer bananas verdes e a beber água de bananeira. Como nós, milhares fogem do terror e da matança. Como nós, milhares tentam sobreviver neste campo de refugiados onde faltam remédios, água, comida, saneamento, assistência médica, um campo onde cresce a doença, a morte, o desalento e o desespero. A Organização Save de Children alerta o Mundo para esta catástrofe. Mas o Mundo está cego, o Mundo está surdo. A pandemia do Covid 19 ganha protagonismo e rouba as atenções de um Mundo distraído desta matança que prossegue impune. A Save de Children apela à interven- ção internacional urgente neste território de luto que enfrenta a pobreza extrema. Há corajosos como o Frei Fernando Ventura que sem medo ecoa a sua voz, relata nos meios de comunicação “esta pandemia de silêncios cúmplices, um drama que se foi alastrando por esta terra pródiga de riquezas naturais, cobiçada pelos isentos de escrúpulos: Cabo Delgado, cabo esquecido, cabo amaldiçoado pelo tráfego de armas, pelo tráfego de drogas, pelo tráfego humano, onde a mancha negra da escravatura macula a face da Terra, onde os senhores da guerra e da avidez por fortuna e poder semeiam o terror. Cabo delgado, cabo assolado pela pandemia do horror que devasta vidas humanas, uma pandemia com o nome pomposo de politicamente correcto, uma pandemia de vozes interesseiras comandada pela arte da hipocrisia sem fronteiras, a arte de pegar num monte de fezes de mão enluvada para não se sujar enquanto crianças são violadas, decapitadas, escravizadas, enquanto jovens são martirizados por se recusarem a acompanhar aqueles que de arma em punho pregam religiosidades. Esta pandemia, este caos, interessa aos que precisam de dividir para reinar, precisam da terra queimada, precisam duma terra de ninguém para prosseguirem com os seus lucrativos negócios”. Frei Fernando Ventura diz que “não há um interlocutor único, há uma profusão de grupos autocéfalos. Não há um exército conven- cional que consiga combater a guerrilha. São os pobres e indefesos que pagam a alta factura do politicamente correcto. Apesar de intervenção pública da Igreja Católica, do Papa Francisco e da Diocese de Braga, as chacinas prosseguem porque nos calamos, porque os organismos internacionais continuam a falhar, porque os que podem só se agitam quando vêem ameaçados os seus interesses”. Se todos os homens fossem como o Frei Fernando Ventura, em Moçambique haveria Paz, o meu filho estaria vivo, a sorrir ao meu lado, e Cabo Delgado seria um cabo abençoado.

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