Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Mobilidade social: um desígnio nacional

Andreia

Ideias

2018-06-21 às 06h00

José Manuel Fernandes

Sou um defensor da mobilidade social, ou seja, da inclusão e da igualdade de oportunidades. Mas não se pode pretender que todos sejam iguais e que, para isso, se procure um mínimo a que todos se reduzam. Não aceito um nivelamento por baixo! Não quero que os ricos fiquem mais pobres. Quero é que os pobres fiquem mais ricos. Defendo que, independentemente da família e do sítio onde se nasça, o Estado tem de garantir a possibilidade de ascensão social. Para isso, é necessário uma cultura de exigência, confiança, mérito, rigor e ambição. Já não há empregos para a vida, o mundo é altamente competitivo e as mudanças tecnológicas são brutais. Para conseguirmos enfrentar todas estas mudanças, precisamos de uma verdadeira aposta no conhecimento e de uma “mentalidade à Cristiano Ronaldo”: Sim, nós somos capazes!
A esquerda radical detesta palavras como mérito, rigor e, até, empreendedorismo, porque considera que alguns não são capazes de lá chegar! Que atitude paternalista... O empreendedorismo é um sinal de liberdade e muitas vezes de superação, e não pode haver valor mais alto que a liberdade.

A educação, a começar no pré-escolar, é essencial. O ensino público é fundamental. O que não significa que se deve excluir, como alguns pretendem, o privado. Estamos fartos de ouvir o slogan da “paixão pela educação”, sem que se procure, de facto, o melhor sistema educativo. A verdade é que sem estabilidade não há o devido sucesso, e os alunos são os principais prejudicados.
Felizmente, temos – regra geral – excelentes professores. Mal pagos, muitas vezes usados pelos partidos e sindicatos e injustiçados na carreira, ainda garantem qualidade ao ensino. Mas há demasiadas falsas frases feitas à volta dos professores. Diz-se que ascendem automaticamente na carreira, o que não é verdade. Os professores são avaliados, têm de realizar formações e há quotas para a progressão! Os professores são a base do nosso ensino e devem ser respeitados.

A reposição do tempo de serviço na íntegra é justa e foi prometida. Mas, de repente, António Costa mudou a narrativa e já tem frases como: “Não há dinheiro. Qual destas três palavras não percebe?”
Admito que o tempo de serviço não possa ser todo contado de imediato, mas terá de contar! A solução terá de ser negociada, numa verdadeira negociação com os professores e não com ultimatos. Deveria ser “diluída” ao longo do tempo.
Os professores trabalham para além da burocracia, do sumariar e do cumprimento de todas as formalidades. Trabalham com os alunos nos projetos “extra curriculum”, na partilha e ensino de valores, substituindo muitas vezes os próprios encarregados de educação. Há menos alunos e há novos conteúdos e, para acompanhar estas mudanças, o sistema educativo precisa de uma modernização. Para isso, é preciso envolver toda a comunidade escolar. Temos de exigir previsibilidade e modernização na educação.

Afinal, a austeridade não acabou. A diminuição da qualidade dos serviços públicos é a prova e os mais prejudicados são as famílias mais pobres.
Os recentes dados da OCDE relativamente à mobilidade social em Portugal mostram que estamos a falhar. Temos feito progressos no combate ao abandono escolar e na melhoria das qualificações, mas são insuficientes. Temos muito a melhorar e não é tudo por falta de recursos financeiros. O Fundo Social Europeu forneceu muitos milhares de milhões de euros a Portugal sem que se atingisse os resultados desejáveis.
Há muitas áreas em que é possível melhorar. A formação profissional, por exemplo, tem de ter em conta a empregabilidade e o interesse do formando, em vez do interesse da empresa de formação. O risco moral tem de ser evitado. Não pode ser mais vantajoso ficar em casa do que ir trabalhar. Não podemos aceitar que se ganhe mais não se fazendo nada!

A igualdade de oportunidades é uma obrigação. Não basta legislar e ter uma “bela” Constituição. É necessária uma mentalidade e uma cultura, simultaneamente, de exigência e de inclusão. Não é aceitável que as hipóteses de um jovem ter uma carreira de sucesso sejam dependentes das suas origens socioeconómicas e do capital humano dos seus pais. Não é aceitável – é escandaloso – que sejam necessárias até cinco gerações para que as crianças nascidas numa família pobre consigam atingir rendimentos médios. A mobilidade social, já aqui o escrevi várias vezes, tem de ser um desígnio nacional.

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