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Ideias

2020-02-14 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Um mito é uma narrativa simbólica, interligado a condições históricas específicas. Ainda que no fundo sejam tenham uma ressonância universal, são chaves que remetem para culturas. Os mitos são poderosos, usando uma terminologia usada por alguns autores de referência, porque de certa forma ajudam-nos a por alguma ordem neste mundo complexo e caótico, a clarificar as escolhas que vamos fazendo e por aí vamos validando a ordem social.
Claro que são adaptados à cultura- senão vejamos alguns dos nossos mitos por aqui em Portugal, o D. Sebastião que uma manhã de bruma voltará, para nos salvar enquanto país, de todos os problemas... Gosto particularmente do Milagre das Rosas; quando a minha neta era bem pequenina, gostava de lhe contar o milagre da transformação do pão no regaço da rainha em pão, e saborear o ar incrédulo com que sempre me contra argumentava :”ó Avó, não digas isso, não é verdade!” Temos esses mitos fantásticos, de milagres espantosos na nossa história, como o da Batalha de Ourique : Jesus Cristo, ou alguém por Ele, teria aparecido a Afonso Henriques motivando-o a lutar e garantindo-lhe a vitória. A fundação de Portugal remetida a um desígnio divino. É atraente. Mas na verdade, boa parte destes mitos, destas lendas, destas histórias fantásticas, existem em culturas muito diversas, a elas adaptadas certamente.

Um dos mitos presentes ao longo dos tempos, desde a Idade Média, é o Robin dos Bosques. É um mito que atrai a todos, a história e as aventuras extraordinárias de um nobre expropriado que roubava aos ricos para dar aos pobres. Exaltando a pobreza voluntária e a liberdade, vivia de forma simples, clandestina, na floresta, com os seus amigos que sempre o ajudam, lutando contra a corrupção da coroa inglesa e contra os excessos dos nobres. Generoso e feliz, sem medos, opõe-se à maldade de forma consistente, e contribui de forma ativa para a redistribuição da riqueza.
A discussão que por aí se faz agora sobre o caso do hacker Rui Pinto fez-me lembrar este mito. Lembrando, trata-se daquele jovem hacker que terá conseguido ter acesso a milhões de dados e de informações provando, insinuando ou mostrando, não sei qual a melhor expressão a utilizar, casos de corrupção, de fugas aos impostos, de branqueamento de capitais, por ai fora. Parte substancial dos documentos tornaram possível a exposição de comportamentos não éticos e mesmo criminosos nomeadamente no futebol português e europeu, e nas movimentações financeiras de Isabel dos Santos. Contribuindo por esta via para uma maior transparência, os argumentos a seu favor sublinham o contributo real para o interesse público.

Hackers são pessoas com conhecimentos significativos de informática, normalmente excelentes programadores, que conseguem contornar obstáculos e mecanismos de proteção a programas e redes de computadores, e aceder a dados arquivados.
As suas motivações, como sempre, não podem ser generalizadas – há quem use tais competências para cometer crimes, outros para revelar fragilidades nos sistemas informáticos, permitindo aumentar a sua segurança, e são na verdade responsáveis por inovações e melhorias nas redes. Alguns trabalham sozinhos, outros são funcionários de grandes empresas, e mantém entre si contactos enquadrados por uma cultura própria.

Há os que usam as suas habilidades para prosseguir fins de espionagem, ou para lutar contra o ciberterrorismo, etc. Embora o romantismo à volta de tais atividades exista, e o mito esteja presente, corresponde básicamente ao violar da correspondência de outrem. E teoricamente, será sempre possível entrar nas contas bancárias de cada um de nós, e retirar o dinheiro que lá temos – isso supondo que subsistem fragilidades nas redes. Por muito que seja o progresso tecnológico, que se acrescentem capacidades e competências reais às máquinas, a criatividade, o reconhecimento de padrões existentes e a identificação de novos padrões, a procura de informação e a capacidade para pensar “fora da caixa” estarão sempre reservadas aos humanos, ultrapassando os algoritmos. Permitindo espionagem e violações de informação com a capacidade de serem utilizadas para a obtenção de vantagens.

O Robin dos Bosques e a construção do mito que o rodeia, não contribuiu para resolver nenhum problema verdadeiramente – nem político, nem social.
As circunstâncias históricas mantiveram-se, os níveis de desigualdade também. Nas sociedades atuais, a crescente complexidade tecnológica exige certamente uma atualização constante das competências, mas a investigação dos crimes é fundamental que seja por quem de direito: polícias e sistema judicial. Só dessa forma poderá haver segurança.

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