Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Mitos e lendas urbanas

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2017-02-03 às 06h00

Margarida Proença

Todos conhecemos histórias mil, que nos foram sendo passadas, e que tomamos como certas, sem pensar muito sobre o assunto. E curiosamente as redes sociais, que poderiam contribuir para a divulgação da ciência, acabam geralmente por reforçar mitos urbanos; pelo contrário, parece mesmo que nesta era da internet, os boatos e os mitos ainda se propagam mais rapidamente e acabamos a acreditar verdadeiramente em fenómenos sem qualquer comprovação científica.

Vejamos um exemplo - uma constipação é uma infeção vírica que se apanha por contágio. Ou seja, é necessário estar exposto a um dos muitos vírus que a provoca. Não é porque saímos com o cabelo molhado, passamos de um ambiente aquecido para a rua, porque temos menos casacos ou porque não comemos laranjas suficientes que ficamos constipados.

Qualquer pesquisa rápida pela internet revela imensos exemplos dos mais diversos mitos urbanos, desde o roubo de órgãos até às ratazanas enormes que inundam os túneis subterrâneos do convento de Mafra, envolvidos nas mais loucas histórias de terror. Diariamente, recebemos nas nossas caixa de e-mail, historias algumas inverosímeis, mas que vão fazendo o seu percurso e sendo reencaminhadas sem qualquer tipo de verificação prévia.

Dizem os psicólogos que os mitos revelam os nossos medos, a ansiedade, principalmente quando os processos de mudança são rápidos e não permitem identificar claramente a direção.
Edgar Morin, um reputado antropólogo e sociólogo francês, estudou aquilo que ficou conhecido como o Rumor de Orleans, na primavera de 1969; a história envolvia o desaparecimento de muitas jovens, falava-se de 28, atacadas em algumas lojas de roupa, e depois embarcadas em submarinos para “destinos piores que a morte”.

Em período eleitoral, o boato foi crescendo como se fora uma epidemia, multiplicando-se e acabou por gerar pânico; foi depois complementado por novos rumores associados a explicações diversas. O certo é que era tudo falso, ninguém tinha desaparecido; as explicações para o rumor teriam a ver com comportamentos anti-semitas (as lojas em causa eram de judeus), e até porventura com uma mentalidade mais conservadora que reagia contra a venda de mini-saias que começavam então a estar na moda. Os rumores, as lendas urbanas refletem assim o tecido cultural, ainda que possam envolver temas permanentes, que passam de uns períodos para outros, e que se transmitem entre culturas diversas.

A internet potencia, multiplica hoje, a transmissão destes mitos, e dada a rapidez com que a informação circula, e a substituição por novas notícias, e novos casos, no fundo acaba por reforçar a ansiedade - e o medo.
Os perigos terríveis que advirão para uma economia, para os trabalhadores confrontados com emigrantes, é um desses mitos. O protecionismo atrai , quase de forma inconsciente, e parece justificado pelas emoções; à flor da pele, parece claro que se deve comprar “nacional”, que se devem proteger os nossos produtos contra “os dos outros”, os nossos trabalhadores contra “os outros”.

Para tal, justifica-se que seja restringido o comércio, que seja criadas ou aumentadas tarifas, que sejam definidas medidas anti-emigração. Quanto mais grave é a crise económica, quanto maior e mais rico é um país, mais significativa é a adesão ao protecionismo - no primeiro caso porque parece que é, naturalmente, a forma de resolver a crise, no segundo caso, porque parece precisar-se menos dos outros países.

O oportunismo e a hipocrisia política explora bem estes temas, apela á emoção e á propagação de mitos sobre culpados e salvadores da pátria. Ao longo da história tivemos diversos exemplos.
A história do capitalismo , e a forma como foi evoluindo ate hoje, tem demonstrado que, em qualquer dos casos, se trata de um mito.

No que respeita à migração, estudos recentes como o de G. Peri , no final de 2016, mostram que até à década de noventa, os imigrantes de países ricos representaram a maior fração da imigração total. Desde então, cerca de metade dos imigrantes para os Estados Unidos, Europa, Canadá ou Austrália pertenciam eram originários da Ásia. Conforme esse autor refere, a emigração dos países muito pobres é baixa, representando fundamentalmente uma fase do desenvolvimento económico.

Um outro estudo interessante, de Foged e Peri, também de 2016, conduzido para a Dinamarca, mostrou que , mesmo no caso de emigração pouco qualificada, os salários dos trabalhadores nacionais não diminuíram; pelo contrário, aumentaram, provavelmente porque estes fizeram a transição para funções de maior complexidade.
A ordem executiva de Trump de bloquear a entrada de imigrantes de sete países muito pobres não se entende, com base em critérios racionais.
Não faz sentido do ponto de vista económico, nem tão pouco pode ser aceite como luta anti-terrorista, já que muitos outros países não foram abrangidos, e na verdade grande parte dos ataques foram gerados de dentro.
Não vão ser anos fáceis.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.