Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Mil milhões pelo V-Day!

A saia comprida

Ideias

2013-01-30 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

No retorno às minhas crónicas no CM, confesso que hesitei sobre a escolha do assunto a tratar. Num país de tanta e tão saudável opinião sobre tudo ou quase tudo o que compõe o tecido do nosso quotidiano social, económico e político, não posso deixar de acusar o peso da redundância da minha opinião.

Questiono-me pois sobre o sentido da sua oportunidade na exacta medida em que não lhe reconheço lá muita utilidade. Ainda assim, partilhar ideias nunca poderá ser coisa má, e muito menos irrelevante a ponto de prescindível! Sobretudo se com as ideias pudermos recentrar, ainda que por breves instantes, a nossa atenção para aquilo que corre mais facilmente o risco de nos passar despercebido. E é na base desta convicção que resolvi hoje antecipar aqui uma data e uma reflexão. A data será a de 14 de Fevereiro. A reflexão será não sobre São Valentim, nem sobre o amor, mas sobre a sua ausência, na forma da violência exercida sobre mulheres e crianças nas nossas sociedades.

A iniciativa de reunir no dia 14 de Fevereiro, em todo o mundo, mil milhões de vozes em prole da luta pela dignidade das mulheres, mas também das crianças, surge da ambição da dramaturga Eve Ensler. Activista dos direitos da mulher e autora da reconhecida obra ‘Monólogos da Vagina’, Eve (Eva) faz jus à força do seu nome, apelando à mobilização de todos os que condenam este flagelo de cobardia.

Em Portugal, só em 2012, quase quarenta mulheres viram as suas vidas brutalmente interrompidas pela violência doméstica. Por contabilizar ficam entretanto as outras vidas que no meio desta coreografia de terror, rodopiam no desnorte do medo, do trauma e da revolta: os filhos. E por contabilizar ficam ainda as vidas que sobrevivem e que nunca chegam a denunciar nada nem ninguém.

São, em suma, muitas vidas, todas igualmente válidas e sagradas, que se estilhaçam ou se perdem de vez. Não seremos piores do que mui-tos outros países, é certo. Mas com o mal dos outros podemos nós bem. Quem acredita que esta é uma realidade que tem de mudar, não deve fazer cerimónia no momento de ponderar sobre o tipo de iniciativas que podem ou não ter maior impacto sobre as agendas políticas, e, mais importante, sobre as mentalidades.

E é por isso que no dia 14 de Fevereiro, todas e todos deverão abraçar o V-Day! No dia de São Valentim, flores são bem-vindas, mas as flores também se oferecem aos mortos. Ora, mais, muito mais do que flores, as mulheres vítimas de violência precisam urgentemente de justiça, de respeito e de verdadeiro Amor.

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