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Meu cabeça de alho chocho!...

Quem me dera voltar a ser Criança

Meu cabeça de alho chocho!...

Voz aos Escritores

2020-03-27 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

O meu avô dizia-lhe sempre, presumo que de forma muito carinhosa, «És um cabeça de alho chocho». Sentia-se o sentimento, pois nunca o meu avô feriu ninguém, muito menos com palavras. Queria ele chamar a atenção para a sua distração, para a sua falta de concentração, que se repercutia em resultados escolares muito frágeis, muito pobrezinhos. Sabíamos o que significava a expressão, comíamos dentes e cabeças de alho, a mãe dizia-nos que fazia bem à barriga, mas nunca relacionei o «alho» com o «chocho», que remetia significativamente para o beijo infantil. «Dá cá um chocho» era o pedido sagrado do nosso avô quando nos via.

Neste momento, procuro a origem da palavra e as informações balançam. Uns dizem que vem do latim «suctus», o que é duvidoso, outros apontam para origens mais problemáticas, mas aceito a origem fluxus, pois me parece a mais plausível. Sabe-se que, na passagem do latim para o português, o grupo «fl» deu origem a «ch», o que se prova, por exemplo, na palavra flamma> flama> chama. A forma divergente «frouxo», com o mesmo sema básico e derivada do mesmo étimo, justifica, talvez, por que razão se escreve muitas vezes «xoxo». A lei da analogia gráfica estraga, por vezes, as boas intenções.
Cogito na palavra, porque alguém me disse, com olhos complacentes, «Hoje estás muito chochinho. Estás virado para o lado da tristura». Achei graça ao sinónimo da tristeza, e muito mais ao sufixo «inho» pespegado no meu olhar, parece que macambúzio. Acontece até em dias de sol, quanto mais em dias de chuva fina e nuvens a abarrotar de cinza.

Eu já tinha contactado com a palavra «macambúzio», a propósito de rimas, e descobri o «búzio» como o par aconselhável ao cruzamento sonoro. Búzios há muitos, há quem lhes assopre nas ventas e projete o som nos ventos, macambúzios também os haverá, que a vida torce os cornos da alegria, mas a origem da palavra, essa, é que anda nos emaranhados da história linguística. Há quem jure ter a ver com pastores de cabras e cabritos, denominados, em Moçambique, qualquer coisa «makambuzi», a quem o isolamento terreal carregaria os trejeitos, pondo-os tal e qual o símbolo (o emoticom) da tristeza, que usamos e abusamos na terrível internet. É uma explicação aceitável, e a melhor, à falta de outra.

E como as palavras são tremoços e cervejinha gelada, aqui vão mais algumas, do mesmo campo semântico. Ia falar de «carrancudo», mas não me apetece falar de carrancas, aquelas caras disformes, de pedra ou de metal, adornos de construções. Também não falo de «taciturno», que me obrigaria a descascar a raiz latina «tacere» (calar), nem de «semiscarúnfio», palavra que nunca ouvi ou li, e que, pelo visto, não obstante estar dicionarizada, ninguém conhece. Falo sim de «sorumbático», cujo significado se deita à sombra triste e fria. Embora não pareça, há por ali a «umbra» latina, que dá origem à nossa sombra. Não se esqueçam que a célebre «umbrela», protegendo da chuva, também protege do sol, dando-nos a bendita sombrinha. A esta, há quem lhe chame chapéu de sol ali pelos cascais das nossas tiazinhas, que eu bem me lembro da madame Vasconcelos a esbordoá-la na sua infeliz criada. O seu marido, coitado, tinha um ar profundamente sorumbático, *soombrático, sombrio e triste, e a culpa, como se depreende, era da assombração com quem tinha casado. Eu sei que não a conhecem, mas adjetivá-la de «meijengra» saberia a pouco. Mais do que meijengra, carrancuda como o bichinho das couves, ela não valia um chavo.

Ia continuar com «misantropo», «acabrunhado» e «capiongo», mas já chega de brincadeiras sinonímicas, algumas das quais nos transportariam, com toda a certeza, para as prolíferas terras dos brasis e dos itus.

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