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#MeToo à portuguesa

A resolução de conflitos de consumo através da Internet (RLL)

#MeToo à portuguesa

Ideias

2021-05-03 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

1. Vou lembrar os leitores, os que habitualmente seguem este espaço de opinião, do tema que retratei naquela que foi a minha primeira crónica de 2018. Com o título “Assédios”, e em jeito de retrospetiva dos acontecimentos mais importantes ocorridos no ano findo (2017), eu decidira eleger como o facto mais relevante, com consequências de alteração positiva ao nível dos comportamentos e das interações humanas, o movimento “#MeToo”. Inúmeras mulheres (alguns homens, também), personalidades públicas, e em diversas áreas – do cinema à moda, passando pela política, mas também pelo desporto -, e um pouco por todo o mundo, denunciaram situações concretas de abuso sexual de que foram alvo, identificando o agressor.
A parte positiva deste movimento, acreditei, residira na alteração de cultura instalada. Uma cultura que, até aqui, assentara na ideia de que este tipo de agressão é uma “brincadeira”, a ser tolerada. Culpa dos predadores, mas, como eu referi, também nossa, porque todos fomos cúmplices desta cultura nojenta que dá a quem tem poder o direito de abusar de quem não o tem.
É óbvio que corremos o risco do exagero de reações. Porque nem tudo pode ser considerado assédio sexual, censurável. Porque pode haver conivência das mulheres em causa, sabedoras de resto, em determinados contextos, de que estão a envolver-se num jogo sexual, que de resto alimentam. Ainda, aproveitando parte da argumentação do movimento contrário ao movimento #MeToo, e que foi liderado pela atriz francesa Catherine Deneuve, há o chamado “flirt” ou “galanteio” que não pode ser considerado agressão sexual. E há a ação consciente e voluntária de mulheres, às quais não reconheço o direito de virem, depois, apresentar lamurias ou queixumes, tendo em conta o contexto, o conhecimento prévio que tinham de tudo.
Ao invés, e distintamente, há que censurar os comportamentos daqueles, homens ou mulheres, que aproveitam o poder e o dinheiro que têm para exercerem liberdades sexuais, mais ou menos explícitas, perante os/as mais dependentes. E essa censura existe, quanto a mim, mesmo que aparentemente as vítimas aparentemente anuam ou acordem, porque a situação de dependência em que estão investidos assim os impele a fazer.


2. Em Portugal, nas últimas semanas, têm sido inúmeros os casos de celebridades que têm trazido para a praça pública as suas experiências pessoais, revelando terem sido alvo de assédio. As declarações da atriz Sofia Arruda, 32 anos, no programa Alta Definição, da SIC, contando que esteve vários anos afastada da televisão por ter recusado os avanços sexuais de “uma pessoa com muito poder”, caíram que nem uma bomba. E têm levado outras mulheres do meio artístico – Cristina Ferreira, Catarina Furtado, Alexandra Lencastre, Bárbara Norton de Matos, Merche Romero, Helena Isabel, entre outras – a assumir terem sido vítimas de assédio sexual. A última revista “SÁBADO” dá voz a 17 mulheres, conhecidas e anónimas, que foram alvo de assédio – no trabalho, na rua, nos transportes públicos, na praia –, para que mais lhes sigam o exemplo. 
Sem prejuízo do respeito que me merece a posição de cada uma destas mulheres, bem como o direito que lhes assiste de falar do tema sem referir “nomes” – com exceção da jornalista e escritora Joana Emídio Marques, que acusou há dias o reputado editor, tradutor e poeta Manuel Alberto Valente de a ter assediado em 2012 -, confesso que desejaria que esta explosão de coragem fosse levada para um outro nível e que os agressores fossem efetivamente identificados. Seria a única forma de termos alguma certeza, quer da veracidade dos episódios, quer ainda das consequências – a certeza de que outras mulheres não passariam pelo mesmo.
Homens que usam o seu poder para obterem favores sexuais, que veem uma mulher como se esta fosse um mero objeto, não são homens; são seres covardes e desprezíveis, que devem ser denunciados. Nos dias de hoje, felizmente, vivemos numa sociedade mais atenta e repudiadora de tais comportamentos. Ao contrário dos tempos de outrora. Exorto, pois. as vítimas a denunciarem e a identificarem os agressores. Apenas assim, estou certo, mais do que mero alarido, poderemos obter uma justa punição do abusador, o que certamente desmotivará outros a adotarem práticas idênticas, contribuindo solidamente para que todos vivamos numa sociedade mais igualitária, respeitadora e digna.

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