Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Merkel e o fim da Europa

O que nos distingue

Ideias Políticas

2012-11-20 às 06h00

Pedro Sousa

A visita de Angela Merkel ao nosso país foi já há uma semana e, como tal, é um assunto já um pouco extemporâneo e exaustivamente analisado e comentado nos órgãos de comunicação social, mas, no entanto, não poderia perder a oportunidade que o ‘Correio do Minho’ me concede quinzenalmente para tecer publicamente o meu comentário sobre a visita da chanceler alemã a Portugal. Tal visita simbolizou demonstrou, mais uma vez, a sobreposição da Alemanha face a todos os Estados membros da União Europeia e a pressão que a primeira exerce nos países do Sul para que adoptem medidas de austeridade como única forma, na sua opinião, forma de resposta à atual crise.

Importa, ainda, referir que Merkel, quando questionada pelos jornalistas portugueses, argumentou que não foi a Alemanha a negociar os programas de ajustamento, empurrando de forma sorrateira a culpa para a troika pelas dificuldades que as famílias portugueses estão a passar, preconizadas pelos duros pacotes de austeridade, também eles responsáveis pelas grandes manifestações e greves gerais.

Contudo, os mais atentos sabem, e não esquecem, que tem sido Merkel a principal impulsionadora da austeridade e que foi ela mesma que disse que a Alemanha apenas será solidária com os países do Sul se estes cumprirem os austeros e recessivos programas de ajustamento, esquecendo-se que, após a II Guerra Mundial, os credores proporcionaram ao seu país as melhores condições para que a Alemanha ultra-endividada pudesse pagar a sua dívida.

Os mais atentos também não esquecem que tem sido a Alemanha a pôr entraves às euro-bonds, ao empréstimo directo de dinheiro por parte do BCE aos Estados e ao investimento público como forma de alavancagem da economia. Tudo medidas que acalmariam de imediato os mercados, que Angela Merkel, tenta há muito e de forma completamente errada, acalmar. Merkel é, por isso, o rosto do entrave a estas medidas que, a serem aprovadas, levariam, quase de imediato, à diminuição dos juros da dívida pagos pelos países que, atualmente, vêem as suas economias fustigadas por juros altíssimos.

No que diz respeito à sobre-posição da Alemanha face aos restantes Estados membros, esta tem tirado partido do facto de outras grandes economias, como é o caso da francesa, não se encontrarem nas melhores condições para se conseguirem afirmar como uma alternativa ao caminho austero alemão. No entanto, nunca é demais lembrar que o projecto europeu foi concebido para combater isso mesmo, ou seja, o domínio da Europa por parte de um só país ou de um conjunto de países economicamente, demograficamente e militarmente mais fortes.

O projecto europeu vai bem mais longe, na medida em que foi concebido com o objectivo de estreitar as relações e fomentar a união entre os diferentes povos europeus para que possa-mos viver numa Europa pacificada e desenvolvida, onde as mais fortes economias têm a obrigação de contribuir para o desenvolvimento das economias mais fracas, num espírito de prosperidade partilhada que foi, “ab initio”, a sua razão de ser.

Contudo, a intransigência, as declarações e a falta de visão de Merkel estão a conduzir a Europa no sentido contrário ao do projeto europeu, na medida em que estão a criar uma espécie de ódio das populações do Sul em relação à Alemanha, bem como um grande e grave preconceito dos países nórdicos em relação aos do Sul. Merkel está, assim, de uma forma perfeita e em todos os domínios, a destruir um esforço de décadas e a contribuir para a destruição do projeto europeu, sem sombra de dúvida a maior e mais fantástica construção política que o mundo conheceu.

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