Correio do Minho

Braga,

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Merecemos as elites que temos... Merecemos? ‘Nós’ quem?

Mentira social e a mitomania

Ideias

2010-05-20 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Vejo o meu filho correr num parque da cidade, feliz como só um menino de quase três anos consegue ser. É uma alegria tão forte, tão completa e genuína que me comove. Vejo-o no meio de outros meninos também eles a correr em direcção a tudo e a nada, porque o que lhes importa naquele momento é apenas correr e não um qualquer ponto ou destino. Quase sempre me limito, para minha felicidade (a possível no estado adulto) a contemplá-lo no seu mundo inocente e fantástico, sem filosofar.

Mas ontem, contra minha vontade, estraguei um desses momentos em que o meu filho me concede a graça de por alguns minutos descansar do meu mundo de adulto, ao dar por mim a pensar: que sociedade é esta em que ele e os seus amigos estão a crescer? Que tipo de futuro lhes garante este país e esta Europa que agora a todos pedem solidariedade e sentido de dever nacional e europeu?

Há alguns anos, talvez três ou quatro, recordo-me de numa aula, enquanto os alunos e eu discorríamos sobre os léxicos que se associam a diferentes momentos políticos e sociais, ter surgido a palavra ‘austeridade’. Para jovens de vinte anos, é como se o ‘Portugal moderno’ tivesse nascido no pós-adesão à ‘CEE’. A própria sigla CEE é para eles tão bolorenta como a palavra ‘austeridade’, ou a expressão ‘apertar o cinto’, e até mesmo ‘desigualdade’ parece ter um qualquer corte de ‘boca de sino’, bigodes fartos e suíças generosas. Naquela aula portanto, a maioria dos alunos desconhecia a palavra ‘austeridade’ e achou-lhe graça - a graça das coisas fora de moda.

De repente, esses mesmos jovens com quem conversei numa qualquer manhã de há 3 ou 4 anos, e que agora devem estar algures entre o fim do segundo ciclo universitário e o início do primeiro salto no mercado laboral, vêem-se confrontados com esse léxico que muitos julgariam aninhado algures nas entranhas revoltas dos inícios dos anos oitenta - o outro tempo, pré-moderno, do chico fininho, do conselho da revolução, da dona branca e de meio Portugal nacionalizado. Austeridade, sacrifícios, congelamentos: todo um novo-velho léxico sobre como hipotecar sonhos, adiar o futuro e gerir a frustração.

Os economistas gostam sempre de não aparentar surpresa, prisioneiros que ainda andam do paradigma positivista e por isso, para eles que não gostam de aparentar sinais de transpiração, tudo isto era mais do que previsível, fosse nos carunchos estruturais da nossa economia, fosse nas dinâmicas especulativas dos mercados financeiros internacionais. Para eles, este léxico só espanta portanto quem andava de todo em todo distraído. Pois seja. Nem por isso a lucidez económica torna menos concreto o legado de incertezas, frustração e ansiedade que as novas gerações de portugueses têm em mãos. Culpados há-os certamente, dentro e fora do país.

Dentro, dirão muitos que a culpa é de todos nós, da crónica fuga aos impostos, dos cambalachos, dos desenrasques, das piratarias, das contrafacções, da mediocridade esperta. Outros dirão que a culpa maior reside na nossa elite política, social e económica, cujos códigos seculares de sobrevivência assentam no culto de uma endogamia de apelidos, de clãs e de interesses, onde entre portas se enaltece a promiscuidade e fora de portas se apregoa o discurso da ascensão exclusiva pelo mérito e competência. E porque da endogamia sistémica só pode resultar tibieza de espírito e de acção, o que temos, com a devida ressalva para as excepções, é uma elite despudoradamente sem qualidade e sem visão de fundo para o país.

Haverá ainda quem diga que nós temos as elites que merecemos. Temos? Quem é esse ‘nós’? O meu filho e as crianças da sua geração? Os meus alunos e os jovens que agora se lançam no mercado de trabalho? Os menos jovens, que como eu são frutos da democratização do ensino aberto aos filhos das classes trabalhadoras, e que tiveram de lutar para chegar ao patamar socioeconómico de onde os filhos das elites já partem ao nascer? Os idosos, muitos deles ainda herdeiros de um Portugal rural, mal-instruído, mal-nutrido, das marias e dos magalas, da França a salto, das Áfricas de ilusão e paludismo? Haverá certamente um ‘nós’, aqui em Portugal, que merece a mediocridade de acção e pensamento das elites (nacionais e europeias).

Mas tenho dificuldade em generalizar para toda a população portuguesa um perfil de culpabilidade por aquilo que temos. O perfil assentará francamente bem aos Rendeiros da nossa praça e aos funcionários europeus que viajam à tripa-forra, mas de modo algum assenta bem à maioria dos cidadãos que merece, isso sim, mais respeito pelas suas inteligências e histórias de vida.

Esforço-me por dar ao meu filho uma infância feliz, na esprança de que a recorde sempre como um tempo de magia e amor incondicional. E por isso hoje, quando o vir correr, prometo-lhe que não desperdiçarei o momento feliz com que ele me contempla, inconsciente da sua generosidade. Logo mais, ao fim do dia, não haverá nada mais importante do que correr no meio de outros meninos em bando.

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