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Mercados, salários e outras coisas

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Mercados, salários e outras coisas

Ideias

2023-02-03 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Por finais do séc. XVIII a 1º Revolução Industrial tinha começado já na Inglaterra. Um período difícil, marcado por profundas alterações tecnológicas e sociais, e que garantiu o processo de formação do capitalismo. Em 1776, Adam Smith publicava A Riqueza das Nações, uma obra pioneira e fundamental na história do pensamento económico.
Para este autor, o Estado deveria intervir o mínimo possível na economia, deixando ao mercado a sua regulação como se houvesse uma mão invisível, um conceito que tinha já introduzido num outro livro, A Teoria dos Sentimentos Morais. A ideia é que as forças da procura e da oferta atuam de forma a gerar o equilíbrio no mercado. Se o ano agrícola tiver estado mau, e a oferta das laranjas for demasiado pequena, o preço das mesmas irá subir. Os consumidores comprarão então menos laranjas, até que eventualmente os vendedores acabem por baixar o preço, saldando digamos assim as laranjas. Preços mais baixos induzirão mais procura, até que a oferta fique equilibrada com a procura. E o mecanismo será inverso se houver excedente na oferta, nesse caso com preços baixos demais para induzir produção adicional de laranjas. Vai acabar por faltar laranjas no mercado, e então os preços voltarão a subir, de novo equilibrando a oferta e a procura. E se um lojista ou um produtor vender a preços mais altos que os seus concorrentes, os consumidores fugir-lhe-ão, forçando o ajustamento. O que faz funcionar este mecanismo de regulação automática através do mercado são forças como o interesse individual que cada um procura que seja o máximo e na verdade também a ganância, mas por esta via ficará assegurado o progresso e a evolução da sociedade. Chama-se capitalismo, e favorece a liberdade de mercado.

Na verdade, as coisas demonstraram-se ser bem mais complicadas, por muitas e variadas razões.
Desde a Revolução Industrial que as temperaturas médias têm vindo a subir, em grande medida devido às emissões de dióxido de carbono e outros gases para a atmosfera, que alteraram a concentração de gases de estufa na atmosfera e as condições de cobertura de superfície. Vamo-nos habituando – se é que se pode dizer isto - a histórias cada vez mais frequentes de anomalias e cataclismos extremos, incêndios catastróficos a extensas inundações ou secas longas, tempestades e furações.
A procura elevada de certos bens determinou, por exemplo, a sobre pesca com a insuficiente capacidade de reprodução.

Alguns produtores conseguem obter economias de escala, produzindo quantidades muito mais elevada que os seus concorrentes. Ou porque o mercado doméstico é muito maior, ou porque acedem de forma mais eficiente aos mercados internacionais, ou porque produzem produtos melhores com uma qualidade mais elevada ou diferenciados por qualquer forma inovadora. E por essa via conseguem vender mais e a preços mais elevados, e os consumidores reconhecem a importância da qualidade ou da diferencia- ção. E os produtores ganham porque conseguem produzir cada produto a um custo unitário mais baixo. E essas empresas crescem mais e mais, e controlam o mercado. E aí compete ao Estado regular o mercado, porque por si próprio não o conseguirá fazer.

As empresas que ficam, nas franjas do mercado, têm a opção de se manter inovando e diferenciando também, ou então optando por baixar os salários e produzir produtos mais tradicionais, com menos qualidade. Mas nestes casos estão dependentes de consumidores com níveis de rendimento mais baixos, que dificilmente irão sustentar qualquer subida de preços por menores que sejam. E acabam por fugir aos impostos e ao pagamento para a segurança social, e finalmente morrem.

Estes exemplos são microeconómicos. A nível macro, por exemplo, a relação entre inflação, juros e salários é complexa. A inflação é a subida generalizada de preços, prejudicando todos. Aparentemente, a subida dos salários na mesma proporção, pelo menos, manter-nos-ia no mesmo patamar em termos de poder de compra. Mas não funciona assim. Para que os preços baixem, é preciso que a procura baixe, mas mantendo o emprego e se possível o investimento. E para tal aumenta-se a taxa de juros e controlam-se as subidas salariais. No setor público, a subida indiscriminada dos salários é certamente justificada do ponto de vista individual, mas o acrescer da despesa pública, num quadro de subida da taxa de juros, tem que ser acautelada.

Há quem ganhe salários chorudos e prémios por desempenho escandalosos, e muitos outros com salários abaixo de um mínimo de dignidade. No futebol como na TAP. Esqueçam as “virgens ofendidas” que agora descobriram isto, os partidos de direita que vêm para os media e redes sociais clamando contra. É verdade: o capitalismo não é o céu na terra, e o papel do Estado ao longo da história explica muito. Portugal fez a sua industrialização ativa enquadrada pela lei do condicionamento industrial e pelo protecionismo. O mercado habitou-se a um contexto não concorrencial e isso na minha opinião explica muita coisa, até mesmo a prevalência de um clima genérico de corrupção.
A coisa não está famosa. E para investir, e crescer, e garantir emprego, etc, é preciso estabilidade. E foco.
E já agora planeamento, que é coisa que os portugueses não gostam muito de gastar.

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