Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Mercados e Democracia

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2010-04-30 às 06h00

Margarida Proença

A Standard & Poor pertence ao grupo americano MCGraw-Hill, e tem como um dos seus objectivos conduzir análises dos mercados financeiros e produzir dados objectivos por forma a tornar possível a escolha entre opções de investimento, tanto para o sector público como para o sector privado. Neste contexto, classifica o risco associado às operações na bolsa, i de investir nesta ou naquela empresa, deste ou de outro país.

Como outras agências de rating, a Moody´s ou a Fitch Ratings , a ideia é indicar aos mercados uma opinião que se pretende independente sobre a capacidade que tanto empresas como estados, têm para pagar as dívidas e os juros dentro dos prazos estabelecidos. Por outras palavras, avaliam a solvência tanto de empresas como de Estados. São então atribuídas classificações para o curto e para o longo prazo relativamente à qualidade e risco do endividamento, e que oscilam entre AAA até ao D, uma espécie de “lixo” como foram recentemente apelidados títulos gregos.

Entre esses limites superior e inferior, existem depois cerca de vinte níveis intermédios, como por exemplo AA+, ou A-. A nota AAA indica que os investimentos são estáveis, e portanto os riscos do não pagamento da dívida quase não existem; uma classificação de A indica que o emissor é confiável, mas os resultados dependerão da situação económica, o que aponta para riscos associados com alterações macroeconómicas.

Como é sabido, a Standard & Poors reviu a sua opinião face aos riscos da dívida pública portuguesa, baixando o nível de credibilidade de longo prazo de Portugal de A+ para A-, e no no caso do curto prazo do nível A-1 para A-2, com base na percepção de uma situação económica colocada face a sérias dificuldades. Já depois desta posição face a Portugal, foi também rebaixada a classificação de Espanha, colocada numa perspectiva negativa o que pode indiciar novas probabilidade de riscos.

O mercado reagiu imediatamente, com quedas na bolsa; o corte do rating irá fazer subir os juros , e portanto tornar mais caros todos os empréstimos , desde os do Estado até aos de cada um de nós. Os bancos nacionais estão no mesmo barco, ou seja, vão deparar-se também com dificuldades adicionais no seu financiamento. Na sequência do anterior corte da notação de uma outra agência internacional, em Março, A CGD, o Santander e o BES, entre outros, alteraram já os intervalos de spread, e dificultaram o acesso ao crédito.

O que é curioso nisto tudo é como de facto os mercados são sensíveis a opiniões, por muito cuidadosas que sejam. Principalmente se as mesmas são negativas. Na verdade, um coro de economistas europeus e mesmo americanos veio de imediato sublinhar que a redução da nota da dívida era no mínimo “duvidosa”, dado que os dados macroeconómicos portugueses não registaram nas últimas semanas nenhuma evolução negativa. E estou aqui a citar, embora livremente, argumentos do Financial Times, por exemplo.

E perpassa por alguns comentários de especialistas reputados a sensação de que poderá estar esta avaliação inquinada por uma percepção de que as economias do Sul da Europa são pouco confiáveis, por uma questão de princípio…

Uma análise mais cuidada remete para o papel da Alemanha na gestão da crise grega, e para a possibilidade de um ataque especulativo dirigido ao euro. As eleições na Alemanha têm sido , na prática, mais importantes do que uma intervenção organizada dos países mais ricos para ajudar a Grécia . As promessas de ajuda a este país têm vindo a subir , mas tudo não passou ainda do papel , e se a gripe grega se generalizar a Portugal , à Espanha e fala-se agora também da Irlanda, então teremos de novo a economia mundial confrontada com um agravar da crise por efeitos de contágio.

E de novo teremos a crise associada com o comportamento das agências de rating , como aconteceu já dois anos atrás. Porque na verdade, elas foram responsáveis por avaliações demasiados optimistas dos riscos envolvidos. Dir-se-ia que preso por ter cão, preso por não ter. Mas é impressionante como empresas, geridas por pessoas que não conhecemos, com opiniões que são cuidadosas, mas no fundo são apenas opiniões, condicionam as economias mundiais, condicionam as decisões de política económica dos países, condicionam a vida das empresas, condicionam a vida de cada um de nós.

E face a essas opiniões, os governos têm de rever as suas orientações e alterar instrumentos de política económica. Não importa por quem foram eleitos.

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