Correio do Minho

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Ideias

2018-01-25 às 06h00

José Manuel Cruz

Comunicado de Romer e desmentido de López-Claro. Sustenta, o primeiro, e chefe corrente do segundo, que o subordinado teria manipulado uns rankings, para prejudicar a imagem de competitividade económica do Chile, puxando o país para cima, aquando governação de direita, e para baixo, na vigência de um executivo socialista. Tudo limpinho, afiança o economista implicado, ao presente ao serviço do Banco Mundial, mas com folha de serviços no FMI e no Lehman Brothers. Tudo gente de virtudes intactas.
Atesta, o vilipendiado, que a erosão de competitividade do Chile se deveu a uma mudança objectiva de valoração, por ajustes de paradigma. Até pode ser verdade, só que não consta que outros estados tenham sido abrangidos por igual lotaria. Critério tão concreto, tão individualizado, chega a ser suspeito. Talvez tudo termine em águas de vídeo-árbitro – fora-de-jogo de milímetros, visto a lente de aumento.
Escândalo incontível, com bode expiatório de ocasião? E porquê o Chile, concretamente? Por ser uma democracia estabilizada, potencialmente próspera, um excelente exemplo de pensamento e governança à moda do Ocidente, ou antes um péssimo modelo, logo que bem arranjado à esquerda, engrossando voz com os desencaminhados e desencaminhantes da Bolívia e do Equador, com os panfletários do Brasil e da Venezuela, à altura Lula e Chavez?
O Chile, por não haver uma sem duas, e duas sem três? O Chile por uma tradiçãozinha de horrível memória, remontando a próximo Pinochet? Armas distintas, o mesmo campo de batalha? Adeus criancices de esquerda, heil desregulação anafada?
Não pretendo estender toalha e deitar-me no areal modesto da teoria da conspiração, nem, em alternativa, na duna altaneira e impoluta da superioridade de esquerda, dado que cada campo asneira à sua maneira. Tampouco irei ao ponto de afirmar que o actual caso espelhe o modus operandi dos suspeitos do costume, dos estrategas de Washington e suas ramificações. O que não sabemos excede, permanentemente, o pouco que ao nosso conhecimento chega. Podemos especular, contudo, e com algum grau de certeza.
O tal López-Claro, que andou com a imagem do Chile às curvas e contracurvas, poderia ter manobrado com um modelo conceptual desenhado por terceiros, desconhecendo totalmente o alcance do artifício. Truques de doméstica magia em que se induz a solução que temos previamente apontada. Atrás de integrais numéricos e diferenciais se esconde uma política com vergonha de si. Conhecemos a falácia do estadista isento de contaminação ideológica, desse sacerdote da objectividade nua e crua, como o nosso jubiloso Cavaco, desses que nos governam para o nosso próprio bem, mesmo quando nos dói por todo o lado.
Acredito que haja por aí oficiais milicianos da política, economistas encartados ou nem por isso, a quem não seja necessário «dar uma palavrinha», posto que de dedinho no ar adivinham de que lado sopra o vento. Põem-se de feição e lá vão ondeando, de asinha aberta, construindo felicidades de subúrbio.
Talvez custe aos visados, mas há muito economista capaz de cometer atentados que envejem a jihadista retinto – trucida, um, de automática ou de camião desenfreado, e outro de gráfico em punho, como imagem venerável do Indizível. Adepto de Deus mal compreendido, jovem converso arrebenta com uma quarentena de transeuntes, tomados ao calha pelo destino; arruína milhares de famílias, profano profeta de ratings, rankings e quejandos. E não é que ambos o fazem em nome de qualquer coisa de intangível, puro e luminoso!
Já o sabíamos: para as agências de notação não existimos. Seremos, quando muito, um contratempo, um sonido estaladiço na irrefreável marcha do progresso, uma sujidade que fica em rasto, um custo acrescido, se não vier aguaceiro que lave o pavimento. Tampouco existimos para a Banca, salvo como pagadores de juros onerosos, por uma casa, sem a qual não possamos viver, por um tratamento hospitalar, sem o qual entreguemos a alma ao Criador. Há quem peça dinheiro para futilidades? Sim, naturalmente, mas tão-só porque os usurários o suscitam e validam, em períodos de excesso de liquidez. Até que sobrevenha nova crise de créditos incobráveis, que acabam sempre por recuperar, por força de operações majestosas de recapitalização, às custas do erário público. Sabemos, agora, que podemos chegar a não existir para um banco de desenvolvimento com obrigações de impar- cialidade assumidas perante a ONU.
A realidade é complexa. Denunciando, sublinharmos nós as podridões? Exaltarmos nós, pelo contrário, o que se mantém limpo e se apresenta como recomendável? Bem vistas as coisas – vamos para onde nos levam. É para ver, o quanto os socialistas de cá não louvam agora o Eurogrupo do Centeno, que o mesmo é de outros dias, desses em que servia de caixa de ressonância ao bom do Schäuble. Mudará um niquinho, mas continuará a promover o que é conveniente… aos de cima.

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