Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Memórias de São João

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2012-08-29 às 06h00

Escritor

Sara Lopes

Estava um dia magnífico. Por toda a aldeia corriam as crianças numa alegria contagiante. Em todo o lado viam-se homens a montar as arcadas. Arcadas essas que enchiam os cidadãos de nostalgia. Havia chegado o grande e esperado dia. Há mais de um mês que toda a aldeia trabalhava arduamente para aquele dia.

A equipa organizadora contratara um fogueteiro e um conjunto para actuar. As zeladoras aparelhavam a igreja. Os voluntários trabalhavam na tasca para angariar fundos. Tudo estava a correr bem e o dia mais importante do ano havia finalmente chegado para satisfação de todos. Era a noite de São João.

Dona Ester, uma senhora já idosa, via esta correria na aldeia com agrado. Apesar da sua idade já avançada, ela gostava daquela altura do ano. Era uma altura cheia de tradições, passadas de geração em geração. No início da sua vida, como qualquer outro jovem, ela não dava importância às tradições e à pacatez de uma aldeia. Porém, com o passar dos anos e devido a algumas mudanças na sua vida, ela tinha-se mudado para lá. E era nesta particular altura do ano que ela ficava especialmente feliz com a sua decisão. Adorava o sossego mas, por vezes, tinha saudades da correria de uma cidade grande.

Com a aproximação da festa chegavam também os imigrantes, que vinham passar férias à sua terra natal. E, de um momento para o outro, toda a aldeia se tornava numa minicidade cheia de alegria, vida e pressa.
Ester sempre gostou da festa do São João. Apesar de tudo, era também o dia do seu aniversário. E era da varanda da sua humilde casa, sentada na sua cadeira de baloiço, com uma chávena de chá frio entre as mãos, que relembrava, com um sorriso nos lábios, tudo o que de bom tinha no seu passado, pela altura dos seus aniversários.

Lembrava-se de tudo como se fosse hoje. A cidade de Braga estava repleta de lindas arcadas. Diversas músicas invadiam as ruas, para deleite de quem lá andasse a passear. A imagem de São João estava na avenida para todos verem. E, como de costume, Ester e os amigos tiravam uma foto para que depois, quando fosse mais velha, pudesse ver as marcas que cada ano deixara nela. Pela avenida abaixo, cada centímetro da rua estava coberto de barraquinhas cheias das mais variadas coisas. Na ponte de São João viam-se inúmeras pessoas empolgadas com os carrosséis, os carrinhos de choque e todas as outras diversões que apareciam a cada ano, sendo a sua preferida o ‘grilo’.

Na grande noite, ela saía sempre por volta das 21 horas, deixando os seus familiares a conviver na sardinhada habitual e característica do dia de São João. Por todo o lado se viam martelos e alhos-porros. Ester era atacada por toda a gente com eles, quer fossem conhecidos ou desconhecidos. Era essa a grande magia que tanto apreciava naquele dia. Todos se esqueciam dos problemas e iam festejar. Todos juntos, sem qualquer discriminação ou preconceito. Todos como uma grande família, embora não se conhecessem.

E, para acabar em beleza, o fogo-de-artifício. Um espectáculo que ninguém dispensava. Cheio de cores e que fazia as crianças agarrarem-se às pernas dos pais com medo, enquanto que nos seus olhos se viam o espanto e a diversão e nos seus lábios um sorriso do tamanho do mundo. Era, simplesmente, uma noite perfeita.

E ao ver passar a sua vizinha, Dona Ester regressa ao presente e volta a fitar a aldeia. A sua aldeia. Os convidados para a sardinhada dessa noite começam a chegar, sendo recebidos pelos seus filhos, que preparam tudo para que o 100.º aniversário da sua mãe seja o melhor possível.

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