Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Medo

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Ideias

2017-03-27 às 06h00

Carlos Pires

O terror, de novo, na Europa. De novo em Londres. Sem explosivos ou armas de fogo. Sem um plano orquestrado por um qualquer grupo estruturado algures nas montanhas. Bastou um simples carro e uma faca. E um local estrategicamente escolhido: o coração de Londres, a ponte de Westminster, mesmo ao lado do mais antigo Parlamento do mundo, símbolo e garante dos valores democráticos em que o mundo livre e esclarecido acredita.

Tal como acontecera no ano transato, em Nice e Berlim, o terrorismo optou por adotar a estratégia da simplicidade. Não, já há muito que não assistimos a ataques com espetacularidade - dificilmente, de resto, alguém engendrará uma carnificina tão grandiosa em efeitos como aquela que ocorreu no já longínquo ano de 2001, mais precisamente no dia 11 de Setembro, com aviões a embaterem contra torres, com mortes de milhares de pessoas, numa produção que nem o cinema de pura ficção havia recriado até essa data.

Agora basta estar na posse de um carro, ganhar velocidade e precipitá-lo sobre inocentes, homens mulheres ou crianças, o maior número possível, sabendo que dificilmente ultrapassará a(s) dezena(s). Poucochinhos. Em segundos. Mas repetidamente: fora assim em Julho do ano passado, em Nice; repetiu-se a receita na Alemanha, em Dezembro, em pleno espírito natalício; e agora, Londres, repetente nestas andanças.

E no meio do choque não faltará quem atribua as culpas aos imigrantes, aos muçulmanos, como se todos estes padecessem do mesmo mal, como se todos tivessem o radicalismo islâmico nas veias. Haverá quem novamente pugne pelo fecho das fronteiras. Haverá quem procure capitular simpatia partidária e votos, sabendo que o discurso xenófobo tem agora mais atentos ouvidos. Sobretudo junto daqueles que têm medo. Medo de perder os empregos. Medo de andar nas ruas. O medo que tolhe e turva a visão.

Em 2011, numa Conferência sobre segurança, no Estoril, o escritor moçambicano Mia Couto afirmara: “há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”. E, segundo o escritor, 'há quem tenha medo que o medo acabe'.

Exemplificando: para conquistar votos é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso fomentar medos. A realidade é perigosa - esta é a grande e conveniente mensagem política associada aos movimentos populistas. Curiosamente, a fome no mundo (1 em cada 6 pessoas), a violência sexual sobre mulheres (1 em cada 3 mulheres), realidades com números impressionantes, causam menos indignação e por isso estão fora dos (convenientes) discursos políticos. Trata-se de outras “guerras”, sem bárbaros identificados e cuja cruzada não rende votos.

Recentemente, a Justiça europeia deu um péssimo exemplo no que concerne à tolerância religiosa: o Tribunal, que decidira conjuntamente sobre os casos de duas mulheres, uma em França e a outra na Bélgica, que foram despedidas por recusarem retirar o lenço islâmico durante o período laboral, considerou que a proibição é admissível desde que fundamentada em regras internas da empresa. Não tenho dúvidas que a maior parte das empresas incluirá tal regra nos seus Regulamentos Internos, pelo que o âmbito de aplicação da proibição será alargado.

As elites, eivadas de alguma arrogância colonial, ainda esperam que as comunidades muçulmanas na Europa (onde já reside 6% da população muçulmana) renunciem à identidade própria. Nada mais errado. E com isso acicatam ódios e fomentam a expansão do radicalismo, este sim, censurável e inadmissível.
'Não há nada que substitua a tolerância' - talvez as mais sábias palavras proferidas por Mário Soares. Além de que, acresce, os problemas não se resolvem com o fecho de fronteiras.
Não tenhamos dúvidas: a cultura do medo alimenta-se a si mesma e inspira mais terror.

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