Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Mecânica Automóvel

Mosteiro de Tibães: um outro olhar...

Conta o Leitor

2014-07-11 às 06h00

Escritor

Mário Campos


Não querendo deitar por terra toda uma reputação construída ao longo do tempo, e sem querer aqui expor em praça pública de forma descarada e gratuita a minha ignorância no que toca à temática da mecânica automóvel, sinto-me na obrigação de partilhar algumas das minhas angústias, isto sem querer obviamente colocar em xeque a minha componente máscula. Pois é meus caros, um homem não tem forçosamente que gostar de futebol, mecânica e sandes de torresmos.

Um dia contaram-me de que havia um mecânico que afirmava a pés juntos de que não tirava barulhos nos carros e usava como premissa, de que ao tirar o barulho, o cliente iria reclamar de outro barulho, aparentemente ofuscado pelo barulho que haveria tirado. Ao contarem-me tal coisa, candidamente na minha inocência ri-me do que me parecia algo digno de um qualquer excêntrico da mecânica, ou até mesmo de um membro de uma qualquer seita religiosa. Hoje, estando num nível de ignorância ligeiramente menor, respeito e venero tal reflexão mais que digna de uma qualquer corrente de pensamento da filosofia moderna.

E foi com este pensamento sempre presente como sombra no meu subconsciente, que outro dia ao estacionar o carro de marcha atrás na garagem, e ao travar a curvar simultaneamente, o carro começou a fazer um barulho semelhante ao de uma corneta.

Melindrado com este barulho, contei à minha esposa, ao que ela apenas se dignou a fazer-me uma cara (como quem diz, lá estás tu a dramatizar, isso não deve ser nada).

E como um barulho a tempo parcial é coisa precária, passado uma semana o carro passou a fazer um outro barulho de forma permanente aquando em movimento, algo que de certa forma veio a complementar o outro ruído em que era condição necessária a combinação de pelo menos três variáveis em simultâneo. Passados uns dias, um colega meu, diz-me que devo ter um rolamento gripado. No entanto, não estava de todo convicto para que fosse um rolamento, visto que na última revisão, a oficina da marca tinha deixado inscrito na fatura uma observação sobre uma peça com um nome estranho para um leigo nesta matéria como eu: ”Polia da Cambota”.

E como tal estatuto de leigo me legitima à ignorância, não fazia a mínima ideia do que era o raio de uma Cambota. Se noutro contexto me dissessem que era uma espécie qualquer de um macaco que habitava as áridas savanas africanas, eu acreditaria naturalmente sem quaisquer reservas. O certo é que também não fazia a mínima ideia do barulho proporcionado por uma polia de uma cambota em estado diferente do normal.

Ainda a ressacar com a reação de indiferença por parte da minha mulher sobre o relato dos barulhos, resolvi um dia de manhã antes de ir para o trabalho, mostrar-lhe in locus, ou melhor proporcionar-lhe a grande oportunidade de ouvir o carro a emular uma corneta, tal como uma vuvuzela estridente a ecoar num estádio. No entanto, o carro não fazia de modo algum o barulho. Ainda mais indignado, e já com a minha mulher fora de vista, voltei sorrateiramente à garagem e fiz perto de dez entradas e saídas na garagem com a esperança de que o ruído voltasse a dar música, facto que não se constatou (pelo menos foi coerente).

Após uma meditação mais aturada sobre o assunto concluí que haveria certamente ainda mais uma variável na equação. Tal condição em falta pareceu-me a necessidade de fazer alguns quilómetros com o carro primeiro e só depois cumprir as três condições.

Passado algumas semanas e já mais que mentalizado para terminar com aquela tortura, decidi recorrer à ajuda dos especialistas da área. Com o receio do custo de uma polia da cambota e após uma breve pesquisa na internet, envolvendo naturalmente os fóruns (o que tem sempre o dom de nos permitir ficar ainda mais confusos, dada a grande multiplicidade de “verdades” relativas), decido consultar além da oficina da marca, uma outra oficina. Tendo sido até ao momento sempre um cliente monogâmico (ou por outras palavras monomecânico) e como monogâmico de princípios, senti-me como uma espécie de traidor em considerar um “deslize”!

Após alguma mentalização para o quase-deslize, decidi dirigir-me à oficina da marca e pedir um orçamento para a polia da cambota e para o “possível” rolamento, o qual identifiquei como sendo à frente no lado esquerdo. O rececionista prontamente dispensou um mecânico, que foi comigo dar uma volta com o carro para ouvir o “Zonzoar” e a “corneta”. O mecânico identificou o “Zonzoar” como sendo de um rolamento, no entanto não disse se era à frente ou atrás, relativamente ao barulho da “corneta”, não consegui reproduzi-lo, talvez não tivesse respeitado na íntegra a quarta condição. Não tendo sido possível tal facto, alvitrou-se de que poderia ser algum empeno no disco de trás. No orçamento, pedi ainda a inclusão da já citada polia da cambota e deste modo fiquei com uma perspetiva do quanto ficaria a festa (pelo menos o som já tinha!).

Já com o orçamento da marca, dirigi-me à outra oficina e perguntei o custo da polia da cambota e com a confirmação de um rolamento gripado pedi também o custo para o rolamento. O preço da polia era sensivelmente o mesmo que o dado pela marca, no entanto acrescentou de que estavam a bom preço as peças da marca e não compensaria deste modo colocar da concorrência. Relativamente ao rolamento apontou para um preço mais uma vez semelhante ao da marca.

Já com a informação dos possíveis gastos, pediu-me para aguardar que trataria do meu assunto após uma saída com o carro de um cliente. Nesta espera, ficava cada vez mais ansioso, se colocaria a polia da cambota, ou adiaria. Temia de que o tipo a qualquer momento se lembrasse de começar a mexer no carro. Veio-me à memória um facto sucedido há uns anos atrás com um amigo, em que levou o carro da mãe a um mecânico manhoso e já com o carro no elevador, o mecânico queixou-se de que o carro tinha também um tubo podre, ao que num ato de justificação do estado avançado de decomposição do tubo, começou com a chave inglesa às cacetadas, no entanto o raio do tubo não partia (talvez não estivesse assim tão podre), até que finalmente após bastantes cacetadas violentas, o tubo lá acabou por ceder.

E no fim deste espetáculo surreal, vira-se para o meu amigo e diz com a maior das latas: ”Viu! Não lhe disse? O tubo está podre!”. O meu amigo já sem reação, pergunta “Como é que o carro vai sair?” ao que o mecânico responde que teria que ser concertado.

Após 10 ou 15 minutos o mecânico lá apareceu e pediu-me para colocar o carro dentro da oficina. Já com algum receio de que começasse a fazer alguma coisa disse que para já desejava apenas um orçamento, ao que anuiu abrindo-me o capot e pedindo para ligar o ar-condicionado. Apontou uma lanterna para o lado direito do motor e perguntou-me porque queria mudar a polia da cambota. Disse que na revisão, tinha ficado registado como observação. Ao que o mecânico disse se fosse com ele não substituía para já, pois nem barulho estava a fazer.

Posto isto, pediu para dar uma volta com o carro para ver melhor, ao que eu assenti. No fundo estava ali numa missão, tal como um espião. Pelo orçamento apresentado, iria à marca e continuaria a minha monogamia, no entanto quanto mais informação recolhesse, melhor seria. Ao andar no carro, o mecânico indicou que lhe parecia ser o rolamento de trás e não o da frente, relativamente à polia da cambota disse que por ele para já não a substituiria, pois não fazia barulho.

A fim de esmiuçar melhor, perguntei se havia problemas de andar assim com o rolamento, ao que ele perguntou-me de forma enigmática o que fazia quando apanhava uma gripe! Subentendi de que seria melhor tratar do rolamento. Agradeci a disponibilidade e com a consciência ligeiramente mais pesada agradeci mentalmente as dicas que me foram extremamente úteis, no entanto não era para já que iria “trair” a oficina com outra. Passados uns dias fui à oficina habitual e substituí o rolamento.

Relativamente ao barulho da corneta, não voltou a aparecer, pelos vistos era originada pela gripe no rolamento, talvez estivesse a assoar-se…
Já agora o mecânico da segunda oficina tinha razão, era o rolamento de trás…


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