Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Mas terá sido notícia? O que é notícia?

Artistas que Monserrate viu nascer

Ideias

2017-12-11 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Foi em 1969 que o poeta Alexandre O'Neill falou sobre a natureza das notícias: /O que é notícia?/ Um hoje que nunca é hoje, / um amanhã que é já ontem (…) / Amanhã acontecido,/ notícia é sempre um depois,/ é um viver vivido... /
No poema Amanhã Aconteceu, inserido na obra De Ombro na Ombreira, O’Neill prefigurava, deste modo, a nossa atual incapacidade de confronto, seja com as coisas que vemos, seja com os outros com quem temos que ver, seja com nós mesmos. Com efeito, a condição tecnológica da nossa época acelerou o tempo e mobilizou-nos para as urgências do presente, de maneira que passamos a sentir uma real impossibilidade de darmos conta da nossa própria vida.

Ao interrogar-se sobre a natureza das notícias, O’Neill retomava uma clássica crítica que é muitas vezes endereçada aos média, de que não têm nenhuma espécie de compromisso com a época, nem com as ideias que a motivam, de que não se batem pelas suas palavras como quem nelas arrisca a própria pele. E não o fazendo desse modo, os média deixam de servir a cidadania, não concorrendo mais para a construção da comunidade humana. Parafraseando O’Neill, seria por ação dos média que a nossa vida de todos os dias se transformou em fait-divers, que é uma estéril superfície do novo, com a atualidade a ser definida de acordo com a ilusão que faz da história uma perpétua atualização, para a qual temos cada vez menos tempo.

Por isso, continua O'Neill, /Notícia é devoração! /Aí vai ela pela goela /que há-de engolir tudo e todos! Nem trabalho de moela /retém notícia... /Notícia sem coração! /
O out-put da gigantesca máquina da tecnologia informativa que se instalou no meio de nós é esse: notícias; não o novo, mas a sua fantasmagoria; uma excitação, uma euforia, um espetáculo, uma efervescência, uma emoção, onde tudo se exibe, e nada se vive; não o novo, mas a novidade, o inédito, o que nunca aconteceu antes. Do trabalho dos média pode dizer-se, ironicamente, que nenhuma outra época produziu em tão pouco tempo tanto passado como a nossa.

Cada vez menos os média se batem pelas suas palavras como quem nelas arrisca a pele. Estando à superfície de nós, a pele é, também, o que há em nós de mais profundo, exatamente porque arriscar a pele é arriscar a vida.
Voltemos ao poeta Alexandre O'Neill. /Cão perdeu-se! Porque não? / Cão achou-se! Ainda bem! /Ainda melhor, por sinal /se o cão perdido e o achado /forem um só e o mesmo /'lidos' no mesmo jornal! /

Atualizemos, entretanto, O’Neill, com dois exemplos-limite, de quem entende “parir abaixo de zero”, para utilizar uma incomparável expressão de Almada Negreiros.
“Sonecas, tiques e limpezas”, foi essa a intrigante notícia com que há dias o Observador nos brindou, esmiuçando, de seguida: “Ministros a adormecer, a trocar mensagens ou a tirar macacos do nariz”. Esta notícia virou uma enxurrada, que atolou as redes sociais.
A segunda grande notícia foi-nos gritada, com raiva, quando já era claro que o défice de 2016 havia diminuído para 2,1%, a economia crescera 1,6%, os salários haviam sido devolvidos, depois de surripiados pelas políticas austeritárias, que haviam sido dogma no país, e que a taxa do desemprego baixara da barreira dos 10%. Aliando-se a meio país partidário e às instituições da Troika, a maior parte dos média permitiu-se, então, fazer tremer o país, procurando defenestrar Mário Centeno, por causa do banqueiro António Domingues.
Concluo, então, o meu ponto de vista: notícia é a superfície infecunda do novo, é a novidade, um movimento sem nenhuma espécie de compromisso com a época, nem com as sus ideias, sem nenhuma espécie de compromisso com os cidadãos, nem com a comunidade humana. Daí a dúvida que assalta O'Neill: /Mas terá sido notícia?/

Dou mais um exemplo, o do jornalismo televisivo. A televisão desempenha hoje entre nós um papel essencial, a ponto de determinar as nossas experiências de vida: como sentir, como imaginar, o que selecionar, como fazer. Cercados que estamos pelo mundo informativo, sabemos do mundo pelo seu eco nas notícias. Aliás, até sucumbimos à ilusão de que viver a nossa vida é fazer uma qualquer experiência televisiva, é exibirmo-nos como uma qualquer notícia.
Sempre que pode, a televisão espiolha-nos até à alma e rentabiliza a nossa privacidade, comercializando-a como um espetáculo, connosco a ter que inventar um quotidiano adequado à expectativa dos espetadores.

É assim nas novelas da vida real, nas reportagens de catástrofes, e em praticamente todos os programas para grandes audiências, com por exemplo, nos programas das manhãs televisivas. A televisão metaforiza, hoje, em termos caricaturais, a sociedade contemporânea: não o novo, mas o seu simulacro, um espetáculo, uma excitação, uma emoção.
Podemos dizer a mesma coisa, todavia, e ainda com maior oportunidade, da sociedade tecnológica da informação. A Internet consagra a omnipresença e a omnipotência do sistema de vigilância; o apelo ao exibicionismo, nas redes sociais; a mobilização para as urgências do presente; a prevalência de lógicas de competição.

Era Flaubert quem advogava que o ideal da literatura consistia em “escrever bem o medíocre”. Queria ele dizer, em dar sentido às forças materiais e espirituais do nosso tempo, em ser o intermediário dos sonhos que animam uma época. E é também desta maneira que eu vejo o papel dos média. A atualidade não tem que se esgotar em novidade, num simulacro do novo, em espetáculo, excitação e emoção. Penso que a atualidade, a nossa experiência do confronto com as coisas, com os outros e com nós mesmos, deve convocar a responsabilidade pelo nosso estado e pelo estado do mundo. E isto também quer dizer que deve convocar uma promessa que seja caminho de encontro, enfim, uma promessa de comunidade.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.