Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

Mas, sem Europa, o que há?

A velha e a muda

Ideias

2011-10-27 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

A recente possibilidade de os subsídios de Natal e de férias serem pagos num futuro próximo de forma faseada ao longo do ano, contribuindo assim para auxiliar as famílias (pelo menos as que têm no seu agregado funcionários públicos) a melhor gerir as finanças domésticas, levava uma amiga minha a comentar um destes dias: ena, já agora paguem às pessoas em semanada!
A amena conversa evoluiu então para o cenário anedótico de um dia sermos todos pagos “à jeira”. Para alguns, já pouca diferença haverá entre as formas arcaicas de relação laboral e o seu presente, apenas matizado pelo rouge digital dos recibos verdes. Gargalhadas à parte, e explicações técnicas à parte sobre a real pertinência da medida no facilitar da gestão do parco erário público (já que de salários de função pública se trata) esta medida suscita-me três reflexões adicionais.
Em primeiro, não posso deixar de notar que medidas desta natureza se encontram associadas a uma dada leitura infantilizante sobre o cidadão, reduzido a pouco mais do que um incompetente em práticas de boa gestão do seu próprio dinheiro. Não importa que ele seja um cidadão remediado que tenha herdado dos pais os ensinamentos da pequena poupança. Para todos os efeitos, ele é apenas o que o discurso político neoliberal lhe permite que seja, a bem da legitimidade da acção dos seus muitos agentes.
O cidadão remediado é na verdade de fácil manipulação. Resulta essa sua domesticidade do facto de sempre temer que algo aconteça ao pouco que consegue amealhar. Se o Governo decidir pois pela reeducação das suas finanças domésticas, mesmo que em boa verdade não precise que lhe ensinem a governar-se, quase certa e brandamente ele o aceitará.
Em segundo, é por demais evidente que o simples facto de se contemplar a discussão de medidas que no fundo se permitem a explorar o lado menos nobre do cidadão (o lado acobardado de quem tem filhos para sustentar e conta para pagar), revela o quão pequeninos são todos estes retalhos com que se pretende remendar as finanças nacionais.
A verdade é que os estados há muito que tinham absorvido o conceito de economia global. O modo como aliás abdicaram do conceito de economia nacional, e se lançaram no mercado global como se fossem apenas ‘mais um entre muitos’ agentes do capital, era aliás avaliada como uma via pela qual o Estado em sentido abstracto, parecia reinventar a sua soberania. O Estava não estava afinal fraco mas a redescobrir formas de Poder que não as contempladas pelo paradigma nacional. Mas economia global é uma coisa; finanças globais, é (seria) outra. E na hora da verdade, na hora da crise, ainda que estando a sua origem no desvario global dos mercados, as finanças ficam confina-das ao seu espaço nacional e com elas as suas soluções, apenas provisoriamente escoradas pelas estacas da ajuda externa que não há-de ser eterna.
Por isso mesmo é que, perante as medidas avançadas para salvar as finanças nacionais, temos a impressão de estar a contemplar pequeníssimas gotas de água cujo real impacto se evapora antes de sequer tocar o braseiro em que se transformou o capitalismo global desde o eclodir da crise em 2008.
Em terceiro, o capitalismo age globalmente, já o aprendemos. Por outro lado, até hoje a única solução que proporcionou à Europa a paz e a prosperidade que sempre lhe pareceram fugidias, foi o projecto europeu, um projecto de união para lá do paradigma das existências nacionais. Por outras palavras, não foram soluções nacionais que salvaram os últimos 50 anos de paz na Europa. Ora, se o capitalismo age globalmente, será de supor que também as respostas para combater os seus desequilíbrios tenham de ser globais, fruto de consensos e de cedências mútuas, fruto em fim da dinâmica de cooperação que atinge o seu expoente máximo em projectos de integração regional como a União Europeia.
Contudo, olhando para a Europa, o que vemos? A mesma Europa que defende a ideia de um projecto comum económico, político, social e cultural, esgrime agora acusações entre pares, retrai-se perante a hipótese de maior união financeira e titubeia enfim perante o imperativo de um compromisso maior das soberanias nacionais com o reforço da União.
Esta Europa parece não acreditar em si. Parece aliás que os governos europeus como que consideram que o mal da situação actual está na própria Europa, como se implicitamente quisessem dizer que fomos longe de mais nos processos de alargamentos e de aprofundamento realizados.
Mas, sem Europa, o que há?
Que capacidade de resposta terão os estados europeus aos desafios de um capitalismo fundamentalista, se actuando dispersa e isoladamente? Acaso poderá a resposta estar a longo prazo na continuação suicidária de políticas de austeridade que esboroam a paz social, amputam a dimensão social da cidadania, e reforçam a condição de ‘protectorado’ dos estados face a agências externas?
Talvez por sabermos, de forma mais ou menos lúcida, mais ou menos intuitiva, qual a resposta a estas perguntas, sentimo-nos especialmente decepcionados com os líderes europeus e as suas muitas hesitações. Mas, as críticas aos líderes não podem confundir-se com críticas ao projecto. Para tanto ainda falta que outro melhor surja que nos possa garantir o que individualisticamente os estados nunca foram capazes de alcançar na Europa.
À hora a que escrevo, no dia 26 de Outubro, ainda não é possível saber qual o desenlace da cimeira que reúne em Bruxelas os chefes de governo e os chefes de estado da União Europeia e da Zona Euro. Resta aguardar que à hora em que esta crónica for publicada, o seu contributo não tenha sido no sentido de reforçar a nossa decepção.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho