Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Marioneta ou narciso?

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2012-10-02 às 06h00

Jorge Cruz

O consultor do Governo de Passos Coelho para as privatizações provocou este fim-de-semana mais um furacão político quando, em pleno Fórum Empresarial do Algarve, chamou ignorantes aos empresários portugueses que se manifestaram contra as alterações na TSU.

“Que a medida é extraordinariamente inteligente, acho que é. Que os nossos empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam no primeiro ano do meu curso da faculdade, isso não tenham dúvida”, sentenciou do alto da sua cátedra António Borges.

Não sei se o antigo responsável do Goldman Sachs (GS) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) se passou de vez ou se esta intervenção “infeliz” e “arrogante”, como foi classificada por António Pires de Lima, se integra em algum projecto político pessoal de um homem que tem demonstrado ser possuidor de um ego bastante maior do que o seu país. Claro que as bojardas que lança satisfazem na perfeição o seu reconhecido narcisismo, o tal que o leva a aparecer de vez em quando na comunicação social, geralmente para fazer prova de vida. Mas a verdade é que as suas intervenções também podem servir na perfeição interesses alheios, como de resto aconteceu não há muito tempo, quando apresentou a “sua solução” para a RTP.

Seria interessante saber se neste como em outros casos António Borges agiu exclusivamente por ditames da sua própria cabeça ou se interpretou o papel de marioneta. Se as declarações proferidas no Algarve, “completamente inaceitáveis e condenáveis, porque de uma insensatez absoluta”, como as classificou Luís Filipe Menezes, são da sua lavra ou se foram sopradas por alguém sem coragem para as assumir. É que não nos podemos esquecer que ainda há tempos o secretário de Estado Carlos Moedas, outro dos interlocutores da “troika” e de igual forma antigo funcionário da Goldman Sachs, também lançou críticas aos empresários portugueses.

Como quer que seja, por excesso de sol na moleirinha ou por encomenda de terceiros, a verdade é que o saldo das intervenções públicas do ex-director europeu do FMI não será muito diferente do que resultaria da passagem de um elefante por uma loja de louça. Claro que a situação só ganha projecção e gravidade pelas funções que lhe foram entregues por Passos Coelho, e que estão longe de serem trabalhos menores.

De facto, o homem lidera a equipa que acompanha os processos de privatização, as renegociações das PPP`s, a reestruturação do sector empresarial do Estado e a situação da banca, áreas que pertenciam ao impagável Álvaro e que, como todos reconhecerão, são de inegável importância quer para o país quer para a banca internacional e para as instituições que integram a troika.

Insisto, no entanto, no interesse em conhecer quem é o mentor das mais recentes intervenções públicas deste consultor do Governo. Estaremos de facto perante meras sessões de ventriloquia sem boneco à vista ou o que se ouve corresponde ao pensamento do seu autor? A questão não é despicienda e é tão relevante quanto é pública a posição favorável de Borges relativamente à privatização da Caixa Geral de Depósitos, curiosamente um assunto que ganhou grande actualidade nos últimos dias.

A qualidade da democracia também se mede pela maior ou menor transparência dos actos praticados pelos agentes políticos. Independentemente das ligações, perigosas ou nem por isso, directas ou indirectas, que alguns dos intervenientes na gestão da coisa pública possam ter, a imagem que é transmitida às populações é demasiado importante para que sejam permitidos quaisquer amadorismos. E convenhamos que neste particular não é só a comunicação que deixa a desejar. Aliás, ainda agora e a propósito desta nova trapalhada, basta ouvir algumas vozes do próprio PSD…

Mesquita Machado, o emblemático presidente socialista da Câmara de Braga, foi homenageado este fim-de-semana por 57 dos 62 presidentes de junta do concelho. Na circunstância, os autarcas terão explicado que se tratou de um tributo ao “amigo que é o orgulho de Braga na Associação Nacional de Freguesias”.

Independentemente da discussão sobre o merecimento ou não de tal homenagem - penso que num país em que se homenageiam pessoas cujos maiores feitos foram cumprir as suas obrigações Mesquita Machado é claramente credor do reconhecimento público -, estou em crer que esta demonstração de gratidão dos autarcas pecou por inoportuna.

E considero-a fora de tempo por várias razões: em primeiro lugar, porque ainda falta mais de um ano para a sua saída efectiva do cargo que ocupa; depois, porque foi demasiado fechada uma vez que mesmo ao ser limitada aos presidentes de junta do concelho poderia e deveria estender-se aos antecessores dos actuais; finalmente, porque abre um precedente perigoso que é o de estimular acções idênticas sectoriais ou de classe.

Confesso que o facto de Mesquita Machado aceitar a homenagem me causou alguma surpresa, conhecida que é a sua aversão a iniciativas deste tipo. Aventei então a hipótese de o autarca ter algo de importante para dizer e querer aproveitar a oportunidade para tal. Equivoquei-me, nada disse de novo.

O que acontece é que Mesquita Machado já não é o mesmo. A idade e os 36 anos de poder transformaram-no. Mas outras oportunidades surgirão para desenvolver esse tema.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

14 Dezembro 2018

Amarelos há muitos...

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.