Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Mário Soares e a liberdade

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2017-01-08 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Há acontecimentos que, apesar de sabermos que a qualquer momento podem ocorrer, nunca estamos preparados para os receber. Um desses momentos prende-se com a notícia da morte de algum familiar, de algum amigo ou de alguma referência da nossa sociedade.
Foi o que aconteceu ontem com o falecimento de um dos maiores símbolos da nossa história: Mário Soares.
O século XX em Portugal ficou marcado por um longo regime político, que teve como rosto principal a figura do Professor António Oliveira Salazar. Foram 48 anos de regime ditatorial (1926-1974), a maior parte deles tendo Oliveira Salazar como rosto principal e intimidatório.
Durante décadas, os portugueses viveram numa sociedade pobre e pouco evoluída, num clima de medo e em permanente ansiedade.
O regime tinha, então, um elevado número de colaboradores nacionais, mas também regionais e locais que, à sua semelhança, impunham as ordens e dispunham de várias influências. Quem não se associasse à realidade política de então, sofria as consequências de forma bem exemplar!
Na ação contra o regime ditatorial português, destacaram-se alguns homens, corajosos, que foram lutando para que Portugal pudesse regressar aos valores da liberdade e da democracia. Nessa luta destacaram-se o bracarense Salgado Zenha, mas também o general Humberto Delgado, Álvaro Cunhal e, indiscutivelmente, Mário Soares.
Natural de Lisboa, onde nasceu a 7 de dezembro de 1924, Mário Soares viveu mais tempo num regime repressivo do que num regime liberal.
Educado segundo os valores do republicanismo e da democracia, cedo se opôs à ditadura e a todos os que com ela colaboravam. Foi influenciado por Álvaro Cunhal para aderir em 1943 ao Movimento de Unidade Nacional Antifascista e acabou por integrar três anos após o Movimento de Unidade Democrática. Em 1949 participou ativamente na candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República e, em moldes idênticos, apoiou a candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República, em 1958.
A sua luta contra a ditadura levou-o à prisão por doze vezes! Foi inclusive na prisão que casou, em 1949, por procuração, com Maria Barroso. Foi deportado para a ilha de São Tomé, em 1968, saindo em 1970 para França, onde se manteve exilado até ao 28 de abril de 1974, dia em que chega a Portugal no célebre “comboio da liberdade”.
Após o 25 de abril de 1974 desempenhou um papel decisivo na consolidação da democracia portuguesa. Exerceu por diversas vezes funções governativas (como Ministro ou como Primeiro Ministro) e foi Presidente da República entre 1986 e 1996.
O prestígio de Mário Soares foi reconhecido a nível mundial, de tal modo que se encontra na galeria das maiores figuras europeias da segunda metade do século XX, a par de Felipe González (Espanha), François Mitterrand (França), Helmut Kohl (Alemanha), Bettino Craxi (Itália), Jacques Delors (França) ou Margaret Thatcher (Inglaterra). A todos estes políticos europeus, onde se inclui Mário Soares, devemos uma sociedade europeia evoluída, democrática e humanista.
No momento em que choramos a morte de Mário Soares, associo à sua luta a luta de muitos bracarenses que, durante a ditadura portuguesa (1933-1974), ousaram candidatar-se em eleições legislativas contra os dominadores do Estado Novo. Também eles contribuíram para o Portugal democrático e livre que hoje vivemos:
- Adelino Miranda de Andrade (Barcelos), António Alberto Campos (Braga), António de Oliveira (Braga), António Pinheiro Braga (Braga), António de Oliveira Braga (Braga), António Marinho Dias (Celorico de Basto), Armando Pereira Bacelar (V. N. Famalicão), Artur Carlos Coelho (Braga), César da Silva Príncipe (Terras de Bouro), Eduardo Ribeiro Martins (Guimarães), Elísio Guilherme de Azevedo (Cabeceiras de Basto), Francisco Rodrigues (Guimarães), Francisco Xavier Sampaio Tinoco de Faria (Braga), Gilberto do Vale Machado (Cabeceiras de Basto), João Mendes Ribeiro (Guimarães), José Augusto Pires (Terras de Bouro), José Garrido Meireles (Celorico de Basto), José Maria Machado de Matos (Guimarães), José Pereira Sampaio (Braga), Luís Gonzaga Caseiro (Braga), Manuel Ferreira da Cunha (V. N. Famalicão), Maria Margarida Malvar (V. N. Famalicão), Mário Torres (Cabeceiras de Basto), Miguel Augusto Ferreira (Cabeceiras de Basto), Victor Barros (Amares); Joaquim Pereira Borges (Famalicão), Victor de Sá (Barcelos) e Virgínia de Faria e Moura (Guimarães).
O regime democrático foi defendido por inúmeras figuras públicas e anónimas e, para muitos, a sua defesa constituiu um ideal que colocou em causa as suas próprias vidas. Assim, num momento em que assistimos ao desaparecimento de um dos maiores estadistas portugueses de sempre, desejo que aqueles que vivem hoje do poder político, que Mário Soares ajudou a criar, não sejam os primeiros a tecer-lhe críticas

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho