Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Maria Ondina Braga e Maria Adelina Vieira: as palavras como um centro, de vida e de tudo

À porta fechada

Escreve quem sabe

2018-05-09 às 06h00

Anabela Guimarães

Uma escritora contemporânea traduzida em mais de vinte línguas, especialmente amada nos países do Leste e no Médio Oriente, com teses de investigação na Alemanha, França e Ingraterra, mas quase desconhecida no seu próprio país, mesmo na sua cidade natal, com a maior parte das suas obras esgotadas e não reeditadas. Uma mulher da diáspora, uma Fernão Mendes Pinto dos tempos modernos, como alguém a definiu e a quem o ex-presidente da República, Ramalho Eanes, em carta dirigida à autora, refere: há ainda na sua obra, para além dessa indiscutível qualidade literária, um dos traços genéticos de maior potencial personalizante na nossa tradição (na nossa personalidade de povo): o que faz de cada um de nós um peregrino insaciável, o que faz de nós, enquanto povo, uma colectividade em peregrinação, virtual e real.
Foi a esta escritora estranhamente desconhecida do público em geral que, no último sábado, dia 5 de Maio, o Palácio do Raio foi palco de mais do que uma sessão de divulgação de um livro inteiramente dedicado a si, porque na realidade, o que ali se passou não foi uma, mas duas homenagens a duas grandes escritoras bracarenses: Maria Adelina Vieira, autora do livro Maria Ondina Braga: em busca de um centro e obviamente Maria Ondina Braga, duas escritoras bracarenses com vasta obra literária e científica publicada quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Regressamos ao primeiro parágrafo para falar da escritora bracarense Maria Ondina Braga, com um percurso literário notável, abrangendo os géneros de poesia, romance, conto, novela, crónica, tradução e, sobretudo uma mulher mundividente, eternamente em busca do seu próprio ser, em si e nos outros. É esta mulher misteriosa e clarividente que a autora, Maria Adelina Vieira, dedica este livro, na verdade uma obra de investigação resultado de uma dissertação de pós-doutoramento em Literaturas Comparadas. Mas desengane-se quem pensar que estamos perante uma obra hermética, académica e só acessível a literatos ou intelectuais. Esta obra científica conseguiu o feito de ser extremamente leve, embora alicerçada em sólidos conceitos de autores consagrados (Ricoeur, Heidegger, Derrida, António Sérgio, só para citar alguns), conseguindo ao mesmo tempo constituir um inegável contributo para um conhecimento mais esclarecido da vida e obra de Maria Ondina Braga, como de sensibilizar o autor para a descoberta ou aprofundamento do seu imenso legado literário.

Resultado, sem dúvida, de uma atitude interior de não compromisso com nada, em que largou as amarras do que um ensaio como este deveria obedecer, a autora, Maria Adelina Vieira, reitera que desejava apenas apresentar uma tese singular. Primeiro porque era singular a amizade entre as duas escritoras, premissa absoluta para esta empreitada, mas também porque era igualmente essencial que a metodologia escolhida deixasse passar ao público o que Maria Ondina Braga era na sua essência. Para isso recorreu ao género epistemológico, dado que a essência da escritora era mais visível e experienciada nas cartas do que nas obras literárias. Construiu, assim, a partir da deambulação temáticas das cartas, uma triangulação à volta do ritual da escrita, da vida literária, e da doença da escritora, explorando as temáticas das viagens e da diáspora, da natureza e da espiritualidade, no fundo os eixos do mundo de Maria Ondina Braga.

Uma aventura em que Maria Adelina se deixou embarcar, quase como quando Maria Ondina viajava, fazendo do Mundo inteiro, a sua casa, que tanto abandonava, desfeita com as desilusões e interrogações permanentes com que se penitenciava, como a fazia remar de novo em busca de mundos novos, quer fisicamente ou espiritualmente, numa viagem permanentemente inacabada à procura de si mesma, do tal centro que dá nome ao título desta obra, numa procura permanente de si mesma.
É verdadeiramente encantador entrar neste universo construído, imaginado e trabalhado com tanto desvelo, quanto rigor, com tanta minúcia, quanto amorosamente dedicado a alguém que se admira profundamente. De uma mulher para outra mulher, de uma escritora para outra escritora. O livro Maria Ondina Braga: em busca de um centro conseguiu o feito duplo de despertar para as criações literárias destas duas grandes escritoras bracarenses, Maria Ondina Braga e Maria Adelina Vieira, cujas obras, curiosamente carecem de ampla divulgação e publicação. Os seus pensamentos, as suas criações, no fundo, as suas palavras, necessitam de ser lidas e apreendidas, desfrutadas, permanecer em memória. Pois, como diz Maria Adelina Vieira: O artista sabe que a obra que cria, na sua imperfeição, é o fruto mais precioso, que tem para oferecer ao mundo.

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