Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Marcelo e as presidenciais

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2010-09-07 às 06h00

Jorge Cruz

Marcelo Rebelo de Sousa, o antigo líder do PSD, foi a semana passada à Universidade de Verão do seu partido defender a reeleição de Cavaco Silva. “Se nós acreditamos na social-democracia, faz todo o sentido que façamos tudo para que continue em Belém um social-democrata”, afirmou em Castelo de Vide.

Considerar que a manutenção de um companheiro de partido como mais alto magistrado da nação seja “o primeiro desafio que nós temos, como sociais-democratas”, parece-me perfeitamente legítimo, sob o ponto de vista quer do PSD quer de Rebelo de Sousa. Menos aceitável e até altamente criticável é que o antigo dirigente tenha acrescentado: “gostemos muito ou pouco daquilo que faz na lei A, B, C, D, no estilo, se ri muito se ri pouco, sorri muito ou sorri pouco, se é mais simpático ou menos simpático”.

Percebe-se a intenção: tentar a todo o custo silenciar as dissonâncias vindas a público, com particular insistência nos últimos tempos, e dessa forma evitar o aparecimento de outra candidatura no mesmo espaço político. Mas o esforço de criar um certo unanimismo no povo da direita em torno de Cavaco Silva, afastando a hipótese insistentemente avançada, por exemplo, por Pedro Santana Lopes, de procurar uma alternativa, poderá corresponder a um plano bem mais complexo do que à primeira vista poderá parecer.

Qual caçador, com este “disparo” Marcelo pode querer atingir dois alvos que lhe interessam: em primeiro lugar, retirar qualquer veleidade de protagonismo a Santana Lopes, reduzindo-lhe drasticamente o seu espaço de manobra, e, depois, tentar assegurar que o actual Presidente venha a fazer o segundo mandato.

Esta questão não me parece despicienda porquanto pode corresponder à congeminação de uma estratégia pessoal de Marcelo para as presidenciais de 2016. Se não vejamos: se surgisse um novo candidato presidencial “patrocinado” por Santana Lopes a disputar o mesmo eleitorado e conseguisse sair vencedor em 2011, certamente que essa personalidade tentaria avançar para um segundo mandato, o que reduziria substancialmente as hipóteses de outros eventuais interessados se imporem como candidatos. Portanto, e na perspectiva de Marcelo, só a reeleição de Cavaco poderá anular tal desiderato e, eventualmente, abrir caminho à sua própria candidatura em 2016.

Mas a estranha argumentação utilizada parece-me francamente pouco abonatória para o actual presidente da República já que de certa forma, e pelo menos no discurso de Castelo de Vide, reduziu as “habilitações” com que Cavaco Silva se apresenta para a reeleição apenas à sua militância social-democrata. De facto, Marcelo não aduziu um único ponto forte do candidato, não avalizou qualquer virtude ou competência, antes preferiu optar por um certo distanciamento apresentando tão-somente o facto de se tratar de um social-democrata como a principal razão para a reeleição. No mínimo, muito estranho.

Ao dizer o que disse sobre Cavaco, Marcelo minimizou de certa forma a função presidencial e fragilizou enormemente o próprio candidato à reeleição perante o eleitorado.
Sim, porque afirmar que pouco importam as atitudes e posturas políticas do mais alto magistrado da Nação, não me parece corresponder a uma posição política séria e responsável. Marcelo sabe perfeitamente que não é indiferente, nem para ele nem para os eleitores, se o presidente é interventivo ou uma mera figura decorativa, se veta diplomas com que não concorda ou os promulga, enfim, se desempenha o não o cargo no respeito pela Constituição e assumindo cabalmente todas as competências que esta lhe confere.

Tão estranha ausência de argumentos para defender a reeleição de Cavaco só pode ser entendida à luz de objectivos menos “transparentes”, sejam eles fazer esquecer recentes actos presidenciais que desgostaram parte do seu eleitorado ou, eventualmente, a estratégia pessoal do próprio Marcelo.

Mas é evidente que para o antigo líder alcançar os objectivos a que se propõe é necessário que até às eleições presidenciais de Janeiro do próximo ano não ocorram grandes agitações políticas.
Provavelmente por essa razão, Marcelo Rebelo de Sousa, o professor, tratou de garantir que “a confusão, a menos que se a queira, não é positiva”. Com esta declaração pretendeu deixar um recado claro ao PSD: o Orçamento de Estado para o próximo ano deve ser viabilizado e o processo da revisão constitucional deve divergir completamente do processo governativo.
De facto, Marcelo manifestou a sua convicção de que o Orçamento de Estado para 2011 “vai ser aprovado” até porque, conforme sublinhou, “seria mau para o país que não o fosse”. Ora, como se sabe, a aprovação do documento implica o apoio ou, no mínimo, a abstenção da bancada social-democrata.

A questão fulcral estará agora em saber se o actual líder do PSD vai ou não acatar os conselhos. No encerramento da Universidade de Verão, no passado domingo, Passos Coelho insistiu na recusa em ser “muleta do PS ou de qualquer Orçamento”. Mas não fechou totalmente as portas à aprovação do documento, embora impondo condições mínimas para a sua aprovação.
Como quer que seja, parece-me que a defesa que Marcelo fez de Cavaco Silva não foi feliz. Reduziu e desvalorizou a função presidencial e fragilizou a própria candidatura que, de certa forma, ficou ainda mais ferida do que estava.

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