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Maradona

A liberdade de ensinar e o direito de aprender contra o extremismo

Maradona

Escreve quem sabe

2020-10-17 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

O Mundo pariu o Deus da bola há 60 anos em Villa Fiorito, favela situada na periferia de Buenos Aires. Foi neste bairro argentino que assinou o primeiro esboço do mais belo quadro do futebol. Tudo nele é precoce. Aos 12 anos já o nome saltava o radar da pobreza. O primeiro holofote estalou no programa «Sábados Circulares», na época uma referência da televisão argentina. Por essa altura, liderava «Los Cebollitas», equipa que esteve mais de 130 jogos sem perder. Ainda não tinha 15 anos – 20 outubro 1976 – carimbava a estreia (substituiu Giacobetti) no esqueleto inicial do Argentino Juniors. Semanas depois, os primeiros golos (dois), no Estádio San Martin, frente ao San Lorenzo de Mar del Plata. A seleção surge um ano mais tarde pela mão do lendário Menotti no estádio do Boca Juniores, palco que o abraça e no qual se enamora para a vida.

Em 1982 entra na Europa, no país que lhe deu o primeiro Mundial. Aterra no chão de Gaudí. Na Catalunha é um astro cuja luz teima em ser ceifada pela porrada atroz que recebe. Andoni Goikoetxea chefia-lhe as marcas nas pernas. A 5 de maio de 84 despede-se de Barcelona, em pugilato, diante do Atlético de Bilbao na final perdida da Copa del Rey. É nessa noite que tenho o primeiro flash de Maradona.
Dois meses depois, já o meu olhar pasmava na apoteótica apresentação em Nápoles. 80 mil viram o que todos já sabiam. O mito definia apenas mais uma etapa no Olimpo.
Cresço com Maradona, como cresce a cidade pobre do Sul de Itália. É um assombro o que vemos no São Paolo e em toda a nação da bota. Clube fora do mainstream, conquista duas Taças de Itália, uma Taça UEFA e dois scudettos (1987 e 1990), até hoje os únicos desta equipa transalpina.

No percurso, sobe ao céu a 29 de junho de 86 no Estádio Azteca. Nunca um Mundial foi tanto de um homem só. Jamais vibrei como nesse Verão. Recordo cada frame. Todo o cheiro desses largos dias. O quente das noites, refrescado por um povo boquiaberto sempre que a camisa 10 desfraldava no escaldante ar mexicano.
Os Mundiais de 90 e 94 ainda o puderam contemplar até que a efedrina o expulsou do lustro do futebol. Roubou-lhe o relvado por uns tempos, mas nunca conseguiu extrair o coração dos amantes da bola. Ainda voltou a Espanha para defender Sevilha. Terminou, como quis, no Boca.

Um mago eterno. A relíquia mais preciosa no barulho das luzes. O filho que todos gostavam de ter. Com ele, o futebol é o desenho perfeito. O exemplo imperfeito fora do campo que todos toleram. A memória que milhões suspiram.
Ninguém consegue tocar em Maradona. Pelé, Eusébio, Cruijff ou Ronaldo são magistralmente terrenos. Messi e Futre, os únicos que lembram traços. Os demais, caricaturas que tiveram o privilégio de conviver e saborear o perfume maradoniano.

Hoje fisgo o muito que tive ao ver a essência do futebol nos pés deste irrepetível predestinado. Um acervo que deleita. Esgrime o banal. Provoca o regular. Convoca a inquietude. Arregala o pelado e o verde. Sacode a história. Reinventa o gostar.
Um dia o futebol irá subir ao céu. Até lá, não tenhamos pressa em dar corda ao tempo. Aqueles que hoje apontam e criticam, sabem lá o que a vista alcança. Tivessem eles sentido o corpo a rugir como La Bombonera e não estariam entretidos a palrar. Deus perdoa. Maradona nunca perdoou.

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