Correio do Minho

Braga, terça-feira

Manuel Fernandes ou o retrato inacabado do homem que não desistiu de amar

Mestres da Ilusão

Conta o Leitor

2018-07-27 às 06h00

Escritor

Autor: Manuel Fernandes

Manuel Fernandes sentava-se todos os dias no mesmo banco, à mesma hora, pelo mesmo período de tempo, fizesse Sol ou chuva, fosse Verão ou Inverno.
Chegava com o mesmo andar calmo, como que medindo meticulosamente a extensão de cada passada, como se viesse a numerar cada passo. Dirigia-se ao banco de todos os dias, procurava uma posição confortável e mantinha-se impávido e sereno com o olhar perdido no horizonte como se aguardasse a chegada de alguém que lhe havia sido anunciado e que ele, disciplinadamente, aguardava. Quando raramente sucedia que um qualquer ignorante deste ritual tivesse antecipadamente ocupado o lugar, Manuel Fernandes prolongava um pouco mais a caminhada e fazia breves passeios em volta daquele banco, parecendo gaivota voando em círculos enquanto procurava aquela nesga de areia onde, protegida da nortada, arejava as penas.
Na pequena vila piscatória ninguém sabia ao certo quem era aquele ancião de altura mediana, longos cabelos grisalhos, revoltos, barba relativamente curta que mal disfarçava os naturais sulcos da vida, um corpo seco de carnes, levemente curvado, como se estivesse em permanente conflito entre a vontade de manter uma pose erecta e o inexorável peso dos anos.
Os poucos que numa ou noutra ocasião procuraram estabelecer contacto, lembravam um sorriso muito leve, mas desajeitadamente forçado, uma voz profunda, um discurso pausado, se é que se pode chamar discurso a breves respostas, pouco mais que um educado “bom dia” ou “muito obrigado”, pronunciados sem alma, como se fossem apenas uma obrigação decorrente da postura de alguém incapaz da mais insignificante deselegância.
Diziam os pretensamente mais bem informados que era um arqueólogo reformado, morador numa cidade do interior e que, cansado das agruras do frio e do calor continentais, resolvera trocar a cidade onde sempre vivera, e onde era querido pelos seus concidadãos, pelo clima mais ameno do litoral. Outros ainda afirmavam que era um velho marinheiro que se apaixonara num tempo em que a idade não permitia tamanho atrevimento e que agora procurava arrumar os desamores que lhe vinham consumindo a vida. Outros ainda, mais imaginosos, falavam de um velho filósofo que, na permanente procura da verdade, acabara por apenas encontrar a mentira.
Não se lhe conhecia família e jamais o surpreenderam acompanhado, o que se permitia às mais díspares explicações. Na casa térrea que ocupava praticamente desde que havia sido notada a sua chegada, nunca fora vista qualquer entrada ou saída. Aliás, mantinha permanentemente abertas portas e janelas, numa aparente contradição face à circunspeção com que emoldurava a sua presença no exterior, como se quisesse manter-se permanente disponível para acolher naquela sóbria habitação alguém que um dia haveria de chegar. Numa manhã de nevoeiro…, ironizavam alguns mais iconoclastas.
E então adiantavam-se as mais díspares explicações, ao sabor da imaginação de cada um. Desde um estatuto de eterno celibatário, passando por casamentos falhados ou uma inexplicável necessidade de se ostracizar de todos e de tudo... Adiantavam-se as mais imaginosas explicações, as mais inverosímeis hipóteses e as mais delirantes conjeturas. E assim, tal como os helenos da Grécia Clássica, também os habitantes da pequena vila litorânea olhavam o céu, acasalavam as estrelas, criavam histórias de amores e desamores e reservavam um fim trágico para esta espécie de mito local, mas que não deixava de ser o homem que todos desconheciam…
Porém, havia unanimidade numa característica que vertebrava a sua figura: os olhos! Apesar de protegidos pelas lentes normais num homem da sua idade, destacavam-se naquele rosto angulado e de sorriso inexpressivo. Eram azuis, mas muito diferentes daquele azul característico de povos do centro e norte da Europa. O azul dos seus olhos era multicolor, apresentando diferentes tonalidades que, garantiam alguns, desacompanhavam a marcha do dia. Afiançavam que evoluíam de um azul pálido matinal para um brilho profundo quando o dia se aproximava do ocaso, como se ganhassem cintilações ao sentir que estavam próximos de se fechar.
Alguns, mais dados a divagações poéticas, afirmavam que os seus olhos traziam a vida escrita. Do belo que amaram, dos desamores que choraram… Outros ainda, menos dotados de reflexões filosóficas, assinalavam um olhar ambivalente entre uma espécie de grito de socorro, um pedido mudo, uma estranha incapacidade para estabelecer o contacto, a que se sucedia um alheamento absoluto como se a luz fosse incapaz de os impressionar. Contudo, fosse qual fosse o observador, todos concordavam que a cor dos olhos era o traço mais significativo do seu retrato físico.
Foi nestes tempos que ouvi falar de Manuel Fernandes pela primeira vez. E foi nestes tempos que se me aguçou a curiosidade por comprovar a aderência da imagem que dele me construíram e aquela outra que eu elaborei e que me impacientava por certificar.
Num dos dias, levantei-me cedo, procurei um banco de onde pudesse seguir dissimuladamente todas as fases do ritual e esperei. Entretanto ia rememorando tudo o que ouvira a propósito de tão enigmática figura, concedendo o devido desconto à inevitável tendência popular de ao conto acrescentar um ponto. E pensava nisto, e deixava-me levar ao acaso até alguns acontecimentos recentes que vieram curto circuitar algumas das mais seguras certezas que blindavam os meus dias. Como se pudesse alguém recuperar os amores que foi deixando perdidos pelo chão…
Perdia-me nas memórias recentes e perdia a força maior que me levara até ali. Apesar de já ultrapassada a hora que impreterivelmente marcava a chegada de Manuel Fernandes ao banco virado para o mar, o lugar continuava desocupado. E inquietava-me pela inusitada ausência. Que jamais acontecera nos dois anos que marcavam a sua chegada à pequena localidade litoral, confiando nas certezas de todos com quem havia falado.
Perdido nos meus mundos tampouco senti que alguém se sentara a meu lado e me olhava calma e serenamente. Desde a hora a que, invariavelmente, Manuel Fernandes se acomodava no outro banco, pelo mesmo período de tempo, fizesse Sol ou chuva, fosse Verão ou Inverno. E alguém continuava de olhar fixo em mim, como se revisse num espelho aquele que já fora e que a partir de então voltaria a ser.
Como se tivesse recriado um novo Dorian Gray naquela vila litorânea.
Como se se tivesse transmutado naquele outro que agora estava sentado num outro banco com vista para o mar, impávido e sereno, com o olhar perdido no horizonte, como se aguardasse a chegada de alguém que lhe havia sido anunciado e que ele, disciplinadamente, aguardava.
Como se tivesse trespassado o seu destino. Nela!
E desde então nunca mais viram Manuel Fernandes sentado todos os dias no mesmo banco, à mesma hora, pelo mesmo período de tempo, fizesse Sol ou chuva, fosse Verão ou Inverno.
E desde então nunca mais se abriram as portas e as janelas naquela sóbria habitação numa pequena vila litorânea. Onde se fazia descansar. Nela!
E desde então um outro banco ficara porto inseguro de um novo Manuel Fernandes que chegara sem se anunciar. Esperando pela vida onde se faria sonhar. Nela!

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