Correio do Minho

Braga, sábado

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Manuel Esteves- o ambicioso de Nogueiró

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Ideias

2010-10-11 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os tempos de crise, em que vivemos, são propícios a descontrolos emocionais de pessoas que, não sabendo como resolver os seus problemas financeiros, recorrem a actos de desespero que se tornam, por vezes, fatais.
O episódio que aqui vou apresentar ocorreu há 130 anos, na freguesia de Nogueiró, concelho de Braga.
Nessa freguesia, então subúrbios de Braga, existia um casal com cinco filhos. O “chefe de família”, Manuel Esteves, que tinha 30 anos, era um oficial de carpintaria, com méritos reconhecidos nesta região. Trabalhava bem a arte da madeira, cujos ofícios eram frequentemente requisitados para obras de relevo social.
Apesar das qualidades profissionais deste jovem carpinteiro, a sua numerosa família necessitava de mais meios financeiros, que ajudassem a um maior desafogo económico dos seus elementos.
Para resolver este problema, Manuel Esteves, o chefe de família, envolvia-se com permanência em estratagemas, que visavam aumentar as receitas familiares, muitas delas de forma menos própria. Por uma ocasião, resolveu criar um estabelecimento comercial, na área da carpintaria. Sem obter grande sucesso económico, esse estabelecimento acabou por encerrar, ficando Manuel Esteves com um prejuízo acumulado.
Noutra ocasião, este chefe de família resolveu apoderar-se das poupanças da sua mulher, para conceder empréstimos sobre penhoras a alguns amigos. Resultado desta actividade, a mulher acabou por ficar sem as suas “moeditas” que adquirira com poupança esforçada.
Ainda noutra ocasião, emprestou um dinheiro a uns amigos, mas este “fiado pozera-o quasi á dependura” (1). Isto porque Manuel Esteves acabou por ser enganado pelos seus amigos, que o deixaram com a sensação de ter sido roubado pela astúcia de uma “cróia, que lhe impingira um cordão falso como Judas”.
A paciência da sua mulher não tinha limites. Por diversas vezes apelava ao seu marido, dizendo-lhe que se deixasse de negociatas dessas, uma vez que não percebia nada disso. Alertava-o a pobre mulher, dizendo-lhe que “só os nobeciantes é que sabiam aqnellar isso sem risco”!
Apesar de tudo isto, o ambicioso Manuel Esteves continuava no seu percurso de aquisição de fortuna fácil. Num ataque de fúria e de desespero, resolveu “assaltar” mais uma vez o mealheiro da sua esposa, e com as poupanças lá depositadas, decidiu gastar mais de “cem mil reis de décimos de loteria de Hespanha”. Mais uma vez feito às escondidas da sua “cara-metade”.
Entusiasmado com o lema “não há azar que sempre dure…”, lá ficou Manuel Esteves ansioso durante alguns dias, à espera que chegasse o momento de ver a sorte sorrir-lhe definitivamente, por ocasião do sorteio da referida lotaria.
Quando a lotaria espanhola foi sorteada, Manuel Esteves ficou desesperado por, mais uma vez, a sorte que ele tanto procurava ter virado … “um azar dos diabos”! Foi então que, num acto de desespero, resolveu lançar-se do cimo de um prédio onde trabalhava, decidindo com este acto colocar termo à sua triste vida.
Este acto ocorreu um dia antes de terminar o ano de 1881 (30 de Dezembro), esquecendo-se que, com este desespero, deixava uma mulher e cinco filhos entregues… à sua sorte!
Como consequência de tudo isto, a sua esposa e filhos acabaram os anos seguintes na maior das misérias, vivendo da caridade dos familiares e vizinhos.
Num tempo de crise, a ambição desmesurada raramente provoca bons resultados. E para isto basta lembrar este Manuel Esteves, o ambicioso de Nogueiró!

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1 - Jornal “O Commercio do Minho”, de 31 de Dezembro de 1881

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