Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Manifestação colossal contra terrorismo do poder!

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2012-09-17 às 06h00

Artur Coimbra

1. Este sábado, 15 de Setembro, ficará na história como o princípio do fim do inepto governo de direita, que o mais certo é não chegar ao final da legislatura, a ultrapassagem e o descrédito da classe política e o triunfo da capacidade de mobilização das redes sociais.

Centenas de milhares de portugueses saíram à rua, no Porto, em Lisboa, mas também em Braga e em dezenas de outras localidades, para manifestar a sua indignação contra o terrorismo de Estado - da troika e dos seus feitores de S. Bento - em que se está a transformar a austeridade. Sob o lema “Que se lixe a troika. Queremos as nossas vidas”, os portugueses quiseram demonstrar que o limite da paciência e dos sacrifícios está a esgotar-se e que é preciso reagir, com veemência e firmeza, porque um governo não tem o direito de fazer tudo o que quer contra o seu povo, seja em que situação for! Não tem essa legitimidade democrática! Nem em situação de emergência!

Até que enfim que a alma que parecia adormecida dos antigos navegadores, das antigas padeiras de Aljubarrota, dos antigos guerrilheiros e combatentes, dos resistentes contra as várias tiranias e opressões, acabou por vir à luz do dia, na tarde solar deste sábado. Já se estava a ficar farto de um povo acocorado, de rabo entre as pernas, sem capacidade para manifestar a sua revolta! O mito dos “brandos costumes” foi uma construção salazarista, que não corresponde à idiossincrasia dos portugueses!

Independentemente de filiações ideológicas ou doutrinárias, de idades ou condições sociais, três gerações, dos reformados aos trabalhadores e aos desempregados, coloriram as avenidas deste país num grito de protesto contra o massacre colossal de que os portugueses estão a ser alvo por parte de um governo sem alma e sem qualquer sensibilidade, que corta ordenados e subsídios, aumenta a carga fiscal para níveis insuportáveis e anuncia as mais gravosas medidas com a displicência de quem vê o mundo através de uma mera, académica e irritante folha de excell.
O país está em transe, sem dúvida, nem podia ser de outra maneira, perante um governo demente!

A primeira lição que há a retirar da gloriosa jornada de sábado, é para Passos Coelho e para a troika: tenham cuidado. O povo português não tem alma de escravo, embora às vezes aguente até um elefante em cima da barriga! Ms quando espirra, adeus Coelho!...

Também o presidente da República tem de deixar de ser o fofo travesseiro onde a direita ressona. Ou assume a sua função de árbitro (que não joga a favor dos partidos que distribuem o tabuleiro do poder), ou ainda acaba por ter de resignar. Se é supremo magistrado da Nação, não pode passar a vida a servir de esfregão às políticas neoliberais e extremistas deste governo. Que se defina, de uma vez por todas: ou apoia o governo ou defende o interesse dos portugueses em geral!...

Em segundo lugar, fica comprovado que os partidos políticos estão ultrapassados. A sua eficácia mobilizadora é ridícula, perante ao gigantismo desta convocatória informal, num país cada vez mais qualificado, moderno e atento. Lá tiveram alguns que se colar às manifestações, para capitalizarem o descontentamento. Os políticos que se cuidem, os partidos que se actualizem!...
Em terceiro lugar, e já nem era necessária esta demonstração, a força incomensurável das redes sociais e da sociedade da informação fica mais uma vez comprovada, sobretudo numa altura em que é latente a sublevação pacífica dos mais habilitados, em especial dos jovens, que são quem mais habilmente maneja estes instrumentos do conhecimento.

2. No fundo da questão, está sem dúvida a crise, mas sobretudo o modo de decretar a austeridade, bem como a sua dimensão.
Os portugueses estão a ser barbaramente causticados por um governo insensível, que não olha a meios para atingir os fins, a pretexto do cumprimento de um memorando de entendimento cujos termos há muito foram ultrapassados e desvirtuados.

Da esquerda à direita, das centrais sindicais às confederações patronais, ninguém apoia as medidas anunciadas pelo governo, desde logo essa esperteza saloia de obrigar os trabalhadores a encher os bolsos das grandes empresas, aumentando as suas contribuições para a Segurança Social, enquanto aquelas vêem reduzida a Taxa Social Única, a pretexto de “combater as altas taxas de desemprego”, o que não passa de mera tanga.

É impossível não ficar indignado quando se vem a saber que, enquanto os trabalhadores são coagidos a vender a sua força de trabalho cada vez mais barata, as grandes empresas lucram 800 milhões de euros com os cortes nos salários, e nem satisfeitas ficam.
Mais inacreditável é quando a própria troika vem declarar que não foi ela a autora da ideia da criação dessa monstruosidade gaspariana.

É impossível não concordar com Manuela Ferreira Leite, quando afirma que “só por teimosia se pode insistir numa receita que não está a dar resultados”, por um governo que actua com base em “modelos que estão a ser perniciosos e não têm nenhuma adesão à realidade”.

Os jornais da semana passada referem, para grande cólera dos portugueses, que o governo “pediu seis vezes mais do que precisa cortar para a nova meta do défice”, em 2013. O Governo está a pedir aos portugueses um esforço de redução do défice 'na ordem dos 4,9 mil milhões de euros', valor quase seis vezes superior à redução necessária combinada com a troika, de cerca de 850 milhões de euros.

Que governo é este que massacra o seu povo, com doses cavalares de austeridade, ultrapassando em seis vezes o que a troika impõe, por mero tacticismo político? Merece respeito um governo assim, que gere o país sem qualquer pingo de sentimento perante o sofrimento que provoca ao seu povo, abusando infamemente do poder que detém?

3. Alguém se admira, assim, de que o 15 de Setembro, foi apenas o início de algo que vai mudar o rumo político, social e cultural deste país?

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