Correio do Minho

Braga,

'Malditas contas de dividir', por Ramiro Costa

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2010-07-09 às 06h00

Escritor

Entrámos na sala de aula, como de costume. Éramos vinte e cinco alunos. Todos rapazes. Nem uma menina. A minha professora entrou, saiu logo de seguida e voltou a entrar. Pareceu-me algo diferente, mais agitada, confusa. Até se esqueceu de escrever a data no quadro.

Começámos aquele dia de quinta-feira a rezar, de pé, em coro, virados para Jesus crucificado que estava na parede. Ainda me lembro da oração. Era assim: “Jesus, Divino Mestre, iluminai a minha inteligência, dirigi a minha vontade, purificai o meu coração para que eu seja sempre um cristão, fiel a Deus e à Pátria”.

Sentámo-nos. E lá começaram as aulas. Éramos alunos da terceira classe e aquele era o dia de ir ao mapa. No mapa de Portugal Continental, apontámos os rios, as serras e os caminhos de ferro. Nos outros mapas, as províncias ultramarinas, as suas riquezas, as vias férreas, os rios. Enfim, tanta coisa diferente! Mas a minha professora terminava a aula sempre da mesma forma: “Portugal é muito grande. Não é só este pequeno rectângulo que vêem na Europa. Estende-se desde a Europa, até à África e à Ásia. É isto tudo de que falámos”.

E mandou arrumar os mapas de Portugal Continental, Insular e Ultramarino.
Bateram à porta. A minha professora saiu por breves instantes, voltou a entrar e disse:
- O João pode sair. Vai com a mãe ao médico.

E a aula continuou. Agora eram as contas de dividir. Era um terror. Quem sabia, estava bem. Mas quem não sabia, também não aprendia porque o medo não deixava aprender. E eu ... não sabia. Estava muito encolhido no meu lugar, era pequenino e rezava a Deus que a minha professora não me chamasse. Se fosse ao quadro, era capaz de não me livrar de umas valentes reguadas. Diziam que a minha professora era boa professora, mas era muito exigente. E eu que o diga!
Foi a vez do António ir ao quadro. E meio ajudado, o que não era costume, lá resolveu aquela conta.

Bateram novamente à porta. A minha professora saiu, voltou a entrar e disse:
- O menino Pedro pode sair. Vai com a mãe ao médico.
Eu bem via que aqueles meninos não estavam doentes! Mas o importante eram as contas.
Foi ao quadro o meu colega de carteira. Pensei logo: “A seguir sou eu”. E comecei a aquecer as mãos.

E continuei a rezar bem baixinho para que não chegasse a minha vez. Até pedi àqueles dois senhores que estavam ao lado de Jesus, e que a minha professora dizia que eram eles que mandavam em nós, que me ajudassem. Mas eu sabia que eles nada podiam fazer. Era tarde. Eu, é que devia ter treinado as contas em casa. E jurei mesmo que ia pedir à minha mãe que me ajudasse a fazer aquelas malditas contas. A conta do meu colega era-me familiar. Eu sabia aquela conta. Já me tinha saído a mim!

O resultado era setenta e quatro e o resto quarenta e oito. Era quarenta e oito … vírgula qualquer coisa. Eu sabia-a de cor. Só não me lembrava bem das casas decimais. Ah, se eu pudesse ajudá-lo! Tinha lugar garantido na equipa de futebol. Mas nada pude fazer. Ai de mim se tentasse! O meu colega, também ajudado pela professora, o que voltei a achar estranho, lá fez a conta. Não se livrou de uns ralhetes bem fortes. Sempre foi melhor que umas reguadas. Veio para o lugar cabisbaixo e sentou-se muito envergonhado. Notei um certo alívio no seu rosto: a sua vez tinha passado. Mas a minha, não.

Voltaram a bater à porta. A minha professora saiu, voltou a entrar e disse:
- O menino Manuel pode sair. Vai com a mãe ao médico.
Comecei a achar esquisitas as idas ao médico, mas ninguém ousou perguntar o porquê daquelas saídas. Se a minha mãe me viesse buscar naquele dia, eu prometia que ia aprender aquelas contas de dividir por dois algarismos. Com vírgulas e tudo. Voltei a rezar a Jesus e a pedir àqueles dois senhores que estavam ao seu lado.

E um após outro, os alunos lá iam saindo. Iam ao médico. Fiquei eu e mais sete. Ainda pensei: “As nossas mães não devem pensar que estamos doentes. Somos fortes e não precisamos de ir ao médico”.
Mas eu preferia estar doente e ir ao médico com a minha mãe.
Bateram novamente à porta. Pensei logo: “ Agora é a minha vez”.
A minha professora saiu, voltou a entrar e disse:
- O José pode sair. Vai com a mãe ao médico.
Ainda não foi desta. Estávamos eu e mais seis dos vinte e cinco que tinham entrado. E todos doentes. Era assim que nos sentíamos. Malditas contas de dividir!
Chegou a minha vez de ir ao quadro. A minha professora chamou pelo meu nome. Levantei me e quase não via nada à minha frente.

Bateram novamente à porta. A minha professora saiu, voltou a entrar e disse:
- O menino Luís - que era eu - pode sair. Vai com a sua mãe ao médico. Mas … antes de sair, escrevam a data nos vossos cadernos porque hoje de manhã, ao entrar, esqueci-me.
A minha professora escreveu a data no quadro.

Virei a página do meu caderno e copiei: Portugal, 25 de Abril de 1974.
Nunca mais esqueci aquele dia. Lembro-me bem que não fui ao quadro. Nem ao médico. Não sei se Jesus me ajudou. Nunca mais rezámos em coro. Mas duma coisa, tenho a certeza: é que aqueles dois senhores que estavam ao lado de Jesus, não me ajudaram. Mais tarde, até vieram buscar os seus retratos. Bem feito! Também não estavam lá a fazer nada.

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